Estou meio cansado, olhos embaçados, parece que há fumaça ao meu redor. Escrevo assim devagar, pois dói-me a mão ainda com bolhas de hoje cedo. Um caixote mal arranjado fará o papel da minha célebre mesa de jantar... Dou uma risada que sai mais alto do que esperava ao pensar em minha mãe. Penso forte, denso, ela quase está aqui à frente perambulando por entre os tijolos e a areia com um ar contrafeito e nariz vermelho de alergia. “Deve ter milhares de gatos por aqui, sabe que sou alérgica a gatos”, brada ela mal se equilibrando no alto de um salto 15.
Meu riso me assusta e num pulo deixo a caneta cair, mas o som parece vir de algo muito mais pesado. Formigas ao chão soam-me como uma debandada de búfalos.
À minha frente não há mais a mesma paisagem e, embora esta seja repulsiva, baixo a cabeça e sigo escrevendo com um lábio mordido ornado por um fio de sangue seco.
Pede-se licença e arranca da mente a marca de batom, a casca de esmalte cor de café. Lindas mãos pousadas sobre fino tecido que fora arremessado com tanto desprezo sobre a cama recém feita com cheiro de chá de maçã. Intempestiva forma fugaz que lança ao ar um sopro de beleza inexplicável, incompreensível encanto no ódio mais primitivo.
Na cena destruída estico as pernas buscando um cigarro, depois os fósforos, esfregando com insistência os olhos, quase acreditando na opacidade do cenário. Sou um homem criança dentro de um corpo adulto retocado. Acima disso apenas o vazio; e abaixo, o vácuo. É isso que me coloca onde estou e não posso cuspir diante de tamanho favor que a vida me concede, jogando-me para longe de antes, dando-me na feiúra e na poeira a sorte de reconstruir as peças encaixadas sem base, tão incrível mosaico que logo desmontaria por completo.
Dobro meu corpo em direção ao chão, vejo-me ali naquela pedra rompida. Agora que monto virilidade, empilho empáfia. Mais um tijolo fora do lugar.
"... gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro, até desistir. Assim é a noite, é isso o que ela faz com você; eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão". (Jack Kerouac, On the road)
quinta-feira, 18 de junho de 2009
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sem controle
Você está pensando o quê? É chegar, sentar, colocar os pés para o alto, acender seu cachimbo e vomitar baforadas no espelho julgando-se capaz de compreender tudo o que lhe cerca.
Enquanto as folhas levantam vôo logo ali você não sabe sequer quem lhe chegou por trás aplicando aquela peça, rasgando a lapela do seu casaco desajeitadamente enquanto tentou sussurrar-lhe um segredo.
Assim algumas palavras desconexas vagam até hoje na sua mente arriscando algumas relações improváveis, unindo-se, invertendo-se, divertindo-se.
É porque, dentre todas, é a mais bela, a mais forte, a mais segura que você tenta alcançar esticando-se na ponta dos pés denotando uma falta de prática patética diante de dez gargalhadas contidas.
Então, você está pensando o quê? Você não sabe mais o que fazer.
Ou nunca soube.
Enquanto as folhas levantam vôo logo ali você não sabe sequer quem lhe chegou por trás aplicando aquela peça, rasgando a lapela do seu casaco desajeitadamente enquanto tentou sussurrar-lhe um segredo.
Assim algumas palavras desconexas vagam até hoje na sua mente arriscando algumas relações improváveis, unindo-se, invertendo-se, divertindo-se.
É porque, dentre todas, é a mais bela, a mais forte, a mais segura que você tenta alcançar esticando-se na ponta dos pés denotando uma falta de prática patética diante de dez gargalhadas contidas.
Então, você está pensando o quê? Você não sabe mais o que fazer.
Ou nunca soube.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Seu moço
Ei, moço,
Você que chega a passos mansos envolto em trapos brancos meio rasgados, já suado em prantos soluçados. Coloca um pé à frente do outro sem métrica, sacode os bolsos com o movimento nervoso das mãos elétricas, tateia por um cigarro, encontra uma foto velha de sua amante histérica que em cantos melosos torneados por cílios postiços colocava-lhe as rédeas.
Ei, moço,
Aonde você vai agora? A chuva está mais forte e você caminha sem rumo, sem sorte, parece a cada dia despertar em busca da morte. E se ao norte sua forma se esvai e você ainda vagueia por entre brisas e poeira, sem esbarrar, sem descansar, sem desviar do rumo imaginário, me diga moço: onde encontra seu fim?
Pois eu aqui não sou ninguém, seu moço, mas me permita dizer-lhe poucas palavras tolas... Caso tudo isso lhe subir pela garganta, entenda que de nada adianta seus passos eternos para diante do ontem. Você apenas se põe a andar em círculos, pois é só o que sua mente conseguirá comandar. Então recolha seus joelhos batidos, seus ouvidos feridos de tanto silêncio e volte para dentro de si até a chuva passar.
Você que chega a passos mansos envolto em trapos brancos meio rasgados, já suado em prantos soluçados. Coloca um pé à frente do outro sem métrica, sacode os bolsos com o movimento nervoso das mãos elétricas, tateia por um cigarro, encontra uma foto velha de sua amante histérica que em cantos melosos torneados por cílios postiços colocava-lhe as rédeas.
Ei, moço,
Aonde você vai agora? A chuva está mais forte e você caminha sem rumo, sem sorte, parece a cada dia despertar em busca da morte. E se ao norte sua forma se esvai e você ainda vagueia por entre brisas e poeira, sem esbarrar, sem descansar, sem desviar do rumo imaginário, me diga moço: onde encontra seu fim?
Pois eu aqui não sou ninguém, seu moço, mas me permita dizer-lhe poucas palavras tolas... Caso tudo isso lhe subir pela garganta, entenda que de nada adianta seus passos eternos para diante do ontem. Você apenas se põe a andar em círculos, pois é só o que sua mente conseguirá comandar. Então recolha seus joelhos batidos, seus ouvidos feridos de tanto silêncio e volte para dentro de si até a chuva passar.
terça-feira, 24 de março de 2009
Antes de agora
O que você vive está estampado na sua cara. Essa cara é a sombra do que já se fez...
Do que já se viu.
E não há como apagar essa marca. Você tenta quebrar, mas o tecido é tão leve que não se rompe na mais alta queda...
E não se rasga no mais firme impulso.
O que você fez e criou cresce a cada momento e a única ação o impele a carregar e arrastar dia-a-dia por entre breves descansos.
E você tenta recomeçar. É um recomeço oposto ao começar de novo... Como um reinvento inverso.
O retrocesso.
E é caminhando a passos curtos para trás que você impede a queda.
Mas jamais descobre o que está atrás do muro.
Do que já se viu.
E não há como apagar essa marca. Você tenta quebrar, mas o tecido é tão leve que não se rompe na mais alta queda...
E não se rasga no mais firme impulso.
O que você fez e criou cresce a cada momento e a única ação o impele a carregar e arrastar dia-a-dia por entre breves descansos.
E você tenta recomeçar. É um recomeço oposto ao começar de novo... Como um reinvento inverso.
O retrocesso.
E é caminhando a passos curtos para trás que você impede a queda.
Mas jamais descobre o que está atrás do muro.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Elline - 1821
O despertar era sempre um momento de delicada transição. Aos poucos o sono se acabava, esgotando sua magia e dando lugar à vivacidade contida na face aquecida. Esse momento sempre a conduzia em leves ondas mornas. A cada sonho uma carga de sensações tão densas e tão profundas que garantiam um dia inteiro de refúgio.
E tão logo o sono findava, Elline abria os olhos lentamente envolta em uma aura espessa avermelhada que tomava seu quarto inteiro e entrava pelas narinas e pelos poros, parecendo arrancar-lhe daquele lugar. Por vários minutos a confusão da chegada à realidade lhe envolvia completamente e ela ficava lá quietinha, absorvendo cada odor, cada espasmo de surrealidade num desejo de agarrar-se àquilo para que não se perdesse jamais.
Fechava então os olhos novamente tentando reviver tudo o que se passara, buscando seu sentido e traduzindo o incompreensível em vagas impressões. Ao selar as pálpebras sentiu o resgate da memória de um sonho reincidente. Ela estava lá. Não era seu corpo, não era seu rosto, mas sabia que era ela. Sob seus pés um chão desconhecido, como se a terra perdesse seu significado e estivesse presente através daquela linha ondulada repleta de grãos minúsculos.
No seu sonho, Elline não falava, não via, não ouvia. Eram apenas impulsos invisíveis a dominar o espaço.
Era como que estivesse a pegar o vento entre as mãos e ouvir-lhe uma cantiga de ninar.
Com os sentidos desconexos a atmosfera alternava em cores, e cada cor um perfume. Por poucos instantes o cheiro suave dava lugar a odores amadeirados que lhe faziam torcer o nariz pela simples lembrança... mas logo cessavam.
O desejo forte caía-lhe como uma rocha no peito e ela se contorcia, por hora tentando evitá-lo em constrangimento infantil, para depois recebê-lo de braços erguidos respirando fundo e guardando em si cada tremor com um sorriso.
Ao fim, ela suspirava. Erguia-se da cama e logo a nuvem da cor dos seus cabelos era expulsa pelos movimentos rápidos e bruscos das arrumadeiras que invadiam seu quarto.
Elline mal podia esperar o anoitecer.
E tão logo o sono findava, Elline abria os olhos lentamente envolta em uma aura espessa avermelhada que tomava seu quarto inteiro e entrava pelas narinas e pelos poros, parecendo arrancar-lhe daquele lugar. Por vários minutos a confusão da chegada à realidade lhe envolvia completamente e ela ficava lá quietinha, absorvendo cada odor, cada espasmo de surrealidade num desejo de agarrar-se àquilo para que não se perdesse jamais.
Fechava então os olhos novamente tentando reviver tudo o que se passara, buscando seu sentido e traduzindo o incompreensível em vagas impressões. Ao selar as pálpebras sentiu o resgate da memória de um sonho reincidente. Ela estava lá. Não era seu corpo, não era seu rosto, mas sabia que era ela. Sob seus pés um chão desconhecido, como se a terra perdesse seu significado e estivesse presente através daquela linha ondulada repleta de grãos minúsculos.
No seu sonho, Elline não falava, não via, não ouvia. Eram apenas impulsos invisíveis a dominar o espaço.
Era como que estivesse a pegar o vento entre as mãos e ouvir-lhe uma cantiga de ninar.
Com os sentidos desconexos a atmosfera alternava em cores, e cada cor um perfume. Por poucos instantes o cheiro suave dava lugar a odores amadeirados que lhe faziam torcer o nariz pela simples lembrança... mas logo cessavam.
O desejo forte caía-lhe como uma rocha no peito e ela se contorcia, por hora tentando evitá-lo em constrangimento infantil, para depois recebê-lo de braços erguidos respirando fundo e guardando em si cada tremor com um sorriso.
Ao fim, ela suspirava. Erguia-se da cama e logo a nuvem da cor dos seus cabelos era expulsa pelos movimentos rápidos e bruscos das arrumadeiras que invadiam seu quarto.
Elline mal podia esperar o anoitecer.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Aos que eu não tenho mais
Até pouco tempo atrás eu tinha um discurso pronto na língua. Dores e expressões que permeavam um senso comum de caixeiro viajante. Uma impressão obrigatória do que ficou depois do salto. E depois do tombo.
Era melhor antes, agora eu estava velha. Havia perdido o tom. Já era tarde e toda razão da minha insônia e do meu cansaço eterno encontrava-se escondida à meia-noite com a lógica insípida e entre agarramentos conspiravam loucuras.
Bastante confortável.
Então por que me deparo hoje com uma porta enorme no meio do caminho que faço todos os dias? Imenso vão surgindo naquela abertura desleixada. A sensação, chegando lá, é de que eu sempre fora míope sem saber. E então acontece aquele flash e tudo vai se repetindo devagar com a certeza novata insistindo que agora as falhas iriam se preencher fechando o mosaico e trazendo um pouco de sentido... Ou tirando bastante do óbvio.
Pois agora, um pouco aliviada nos ombros, estou tentando juntar umas palavras que se traduzam em leituras sem vício. É aquela esperança boba de alcançar o bolo que está em cima da geladeira.
E eu que sempre pensei que a consciência fosse libertadora, hoje percebo que é uma reles condicional.
Era melhor antes, agora eu estava velha. Havia perdido o tom. Já era tarde e toda razão da minha insônia e do meu cansaço eterno encontrava-se escondida à meia-noite com a lógica insípida e entre agarramentos conspiravam loucuras.
Bastante confortável.
Então por que me deparo hoje com uma porta enorme no meio do caminho que faço todos os dias? Imenso vão surgindo naquela abertura desleixada. A sensação, chegando lá, é de que eu sempre fora míope sem saber. E então acontece aquele flash e tudo vai se repetindo devagar com a certeza novata insistindo que agora as falhas iriam se preencher fechando o mosaico e trazendo um pouco de sentido... Ou tirando bastante do óbvio.
Pois agora, um pouco aliviada nos ombros, estou tentando juntar umas palavras que se traduzam em leituras sem vício. É aquela esperança boba de alcançar o bolo que está em cima da geladeira.
E eu que sempre pensei que a consciência fosse libertadora, hoje percebo que é uma reles condicional.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Idéia imediata
Quem diria que eu me encontraria hoje nesse corpo mirrado de fala resmungada e mente no repeat.
Assim estou. Sentado, sentindo e transpondo toda a minha velhice desde que desisti de caminhar para guardar as gotas de energia que a vida me dava em pingos miseráveis semanais... Os olhos parecendo não ver, talvez em protesto pela cegueira de uma geração.
Acomodo-me entre as tábuas com meus ossos que perderam a proteção e agora esperam a ordem para desmoronar. Mas eu não me importo porque não dói. Pelo contrário, sinto conforto na rigidez insegura da minha estrutura oca e faço pirraça me encurvando um pouco mais. Olho para os pombos com fome e para a mulher gorda que finge sofisticação. Se fosse para comer talvez ela fosse mais apetitosa, mas a questão toda é que eu prefiro os bichos mesmo.
Passa o jovem atlético correndo descompassado: é seu pescoço que virou para acompanhar o ritmo daquela colegial com quadris de criança. Meu ouvido peludo capta um choro de bebê que mais se assemelha a uma gata no cio e assim desperta minha fome novamente.
Talvez devesse tomar um café da manhã de vez em quando...
O fato é que não lembro de estar em outro lugar que não nesta praça de 5 metros de diâmetro em frente a uma igreja meio caipira que mais recebe famintos em busca de hóstia do que fiéis em busca de uma carreira de reza. E nessa onda de ficar sempre aqui esqueço a hora de ir.
Foi quando me deparei comigo de pé em um dia de garoa com sol porque não encontrava o banco. E nem a praça. Nem mesmo aquele cheiro agridoce de feijão com detergente da velha de muletas. Foi aí que lembrei de voltar.
Mas agora não me pergunte mais. Não lembro bem se voltei ou não.
Assim estou. Sentado, sentindo e transpondo toda a minha velhice desde que desisti de caminhar para guardar as gotas de energia que a vida me dava em pingos miseráveis semanais... Os olhos parecendo não ver, talvez em protesto pela cegueira de uma geração.
Acomodo-me entre as tábuas com meus ossos que perderam a proteção e agora esperam a ordem para desmoronar. Mas eu não me importo porque não dói. Pelo contrário, sinto conforto na rigidez insegura da minha estrutura oca e faço pirraça me encurvando um pouco mais. Olho para os pombos com fome e para a mulher gorda que finge sofisticação. Se fosse para comer talvez ela fosse mais apetitosa, mas a questão toda é que eu prefiro os bichos mesmo.
Passa o jovem atlético correndo descompassado: é seu pescoço que virou para acompanhar o ritmo daquela colegial com quadris de criança. Meu ouvido peludo capta um choro de bebê que mais se assemelha a uma gata no cio e assim desperta minha fome novamente.
Talvez devesse tomar um café da manhã de vez em quando...
O fato é que não lembro de estar em outro lugar que não nesta praça de 5 metros de diâmetro em frente a uma igreja meio caipira que mais recebe famintos em busca de hóstia do que fiéis em busca de uma carreira de reza. E nessa onda de ficar sempre aqui esqueço a hora de ir.
Foi quando me deparei comigo de pé em um dia de garoa com sol porque não encontrava o banco. E nem a praça. Nem mesmo aquele cheiro agridoce de feijão com detergente da velha de muletas. Foi aí que lembrei de voltar.
Mas agora não me pergunte mais. Não lembro bem se voltei ou não.
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