quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Elline - 1821

O despertar era sempre um momento de delicada transição. Aos poucos o sono se acabava, esgotando sua magia e dando lugar à vivacidade contida na face aquecida. Esse momento sempre a conduzia em leves ondas mornas. A cada sonho uma carga de sensações tão densas e tão profundas que garantiam um dia inteiro de refúgio.
E tão logo o sono findava, Elline abria os olhos lentamente envolta em uma aura espessa avermelhada que tomava seu quarto inteiro e entrava pelas narinas e pelos poros, parecendo arrancar-lhe daquele lugar. Por vários minutos a confusão da chegada à realidade lhe envolvia completamente e ela ficava lá quietinha, absorvendo cada odor, cada espasmo de surrealidade num desejo de agarrar-se àquilo para que não se perdesse jamais.
Fechava então os olhos novamente tentando reviver tudo o que se passara, buscando seu sentido e traduzindo o incompreensível em vagas impressões. Ao selar as pálpebras sentiu o resgate da memória de um sonho reincidente. Ela estava lá. Não era seu corpo, não era seu rosto, mas sabia que era ela. Sob seus pés um chão desconhecido, como se a terra perdesse seu significado e estivesse presente através daquela linha ondulada repleta de grãos minúsculos.
No seu sonho, Elline não falava, não via, não ouvia. Eram apenas impulsos invisíveis a dominar o espaço.
Era como que estivesse a pegar o vento entre as mãos e ouvir-lhe uma cantiga de ninar.
Com os sentidos desconexos a atmosfera alternava em cores, e cada cor um perfume. Por poucos instantes o cheiro suave dava lugar a odores amadeirados que lhe faziam torcer o nariz pela simples lembrança... mas logo cessavam.
O desejo forte caía-lhe como uma rocha no peito e ela se contorcia, por hora tentando evitá-lo em constrangimento infantil, para depois recebê-lo de braços erguidos respirando fundo e guardando em si cada tremor com um sorriso.

Ao fim, ela suspirava. Erguia-se da cama e logo a nuvem da cor dos seus cabelos era expulsa pelos movimentos rápidos e bruscos das arrumadeiras que invadiam seu quarto.

Elline mal podia esperar o anoitecer.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Aos que eu não tenho mais

Até pouco tempo atrás eu tinha um discurso pronto na língua. Dores e expressões que permeavam um senso comum de caixeiro viajante. Uma impressão obrigatória do que ficou depois do salto. E depois do tombo.
Era melhor antes, agora eu estava velha. Havia perdido o tom. Já era tarde e toda razão da minha insônia e do meu cansaço eterno encontrava-se escondida à meia-noite com a lógica insípida e entre agarramentos conspiravam loucuras.

Bastante confortável.

Então por que me deparo hoje com uma porta enorme no meio do caminho que faço todos os dias? Imenso vão surgindo naquela abertura desleixada. A sensação, chegando lá, é de que eu sempre fora míope sem saber. E então acontece aquele flash e tudo vai se repetindo devagar com a certeza novata insistindo que agora as falhas iriam se preencher fechando o mosaico e trazendo um pouco de sentido... Ou tirando bastante do óbvio.
Pois agora, um pouco aliviada nos ombros, estou tentando juntar umas palavras que se traduzam em leituras sem vício. É aquela esperança boba de alcançar o bolo que está em cima da geladeira.

E eu que sempre pensei que a consciência fosse libertadora, hoje percebo que é uma reles condicional.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Idéia imediata

Quem diria que eu me encontraria hoje nesse corpo mirrado de fala resmungada e mente no repeat.

Assim estou. Sentado, sentindo e transpondo toda a minha velhice desde que desisti de caminhar para guardar as gotas de energia que a vida me dava em pingos miseráveis semanais... Os olhos parecendo não ver, talvez em protesto pela cegueira de uma geração.
Acomodo-me entre as tábuas com meus ossos que perderam a proteção e agora esperam a ordem para desmoronar. Mas eu não me importo porque não dói. Pelo contrário, sinto conforto na rigidez insegura da minha estrutura oca e faço pirraça me encurvando um pouco mais. Olho para os pombos com fome e para a mulher gorda que finge sofisticação. Se fosse para comer talvez ela fosse mais apetitosa, mas a questão toda é que eu prefiro os bichos mesmo.
Passa o jovem atlético correndo descompassado: é seu pescoço que virou para acompanhar o ritmo daquela colegial com quadris de criança. Meu ouvido peludo capta um choro de bebê que mais se assemelha a uma gata no cio e assim desperta minha fome novamente.

Talvez devesse tomar um café da manhã de vez em quando...

O fato é que não lembro de estar em outro lugar que não nesta praça de 5 metros de diâmetro em frente a uma igreja meio caipira que mais recebe famintos em busca de hóstia do que fiéis em busca de uma carreira de reza. E nessa onda de ficar sempre aqui esqueço a hora de ir.

Foi quando me deparei comigo de pé em um dia de garoa com sol porque não encontrava o banco. E nem a praça. Nem mesmo aquele cheiro agridoce de feijão com detergente da velha de muletas. Foi aí que lembrei de voltar.

Mas agora não me pergunte mais. Não lembro bem se voltei ou não.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A partir de agora

Difícil perceber a história cercada de sons e tumultos. Só sei dizer que vi você...

Não foi a primeira vista, muito menos a última. Mas eu estava lá e você também, num dia qualquer de verão de cidade. E na situação mais improvável de se sentir, eu não mais vi você... Eu fui você. Pelos seus poros senti arrepios estranhos, nem sempre bons, nem sempre convenientes. Olhei para todos os lados, visão turva, mas cheia de ponto certo em todo lugar. Achei graça de umas coisas estranhas, fui vista diferente. E meu perfume não era igual quando era meu...

Engraçado saber exatamente o que dizer quando tudo o que importa é estar ouvindo. Nada do que se diga tem o menor efeito sobre o que você sente, e eu sinto ainda mais estranho. Afinal, se nada disso importa não há porque conviver, não há porque ser você, não há porque tentar não ser mais eu.

É apenas o acaso vazio, sensações descritas por promessas de uma quase vivência impossível de se tomar para si como percurso viável. E que nada parta de uma linhagem psico-depressiva com compulsão por consertar pés-de-mesa. O que vai ficar é o que você sentiu... Isso e a lembrança de uma dor diminuída que confirma a nova certeza.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Chuva

E foi naquele dia em que dois homens grandes e minúsculos acostumados a se justificar por tudo e por todos se encontraram. E quando se uniram surgiu um enorme balão que foi inflando e crescendo até suas bases não suportarem mais.

E nesse dia - fazia sol - o balão estourou e o que se sucedeu foi uma chuva de respostas que caíam sem parar nos telhados e carros, batendo contra janelas dos escritórios superaquecidos e superesfriados... E caíam sobre os lixos e ruas, escoando nos esgotos entupidos de tantas sugestões... Estúpidos engodos.

E caíam sobre as cabeças atordoadas das pessoas que corriam e se sacudiam como cães, rindo e enchendo seus bolsos que já se abarrotavam de dúvidas.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Micro psicose cotidiana

Ela chegou em casa irada, cansada, arremessou a bolsa bordada, inchada, acertou na janela fechada...

E quebrou o vidro que acertou no cachorro de três patas, que furou o olho e caiu sangrando até o fim.

Agora ela descansa todo dia apoiada na soleira com vista para a mancha vermelha.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Na esquina

Cidade feia, metade já está dormindo, metade já está acordando. E eu lá, de canto, esperando o ônibus. Acendo um cigarro, chamada imediata para o velho de calças rasgadas que logo vem me pedir um fila. Fila não se nega, se dá contra a vontade, mas não se nega.
A mulher ciumenta vem tirar satisfações e eu abano com sorrisinho blasé. Quem disse que tem idade para sentir ciumes? Ele me olha, faz cara feia e tenta me confidenciar algo, eu não entendo nada e aceno que sim. Ele se contenta com isso e some na noite... atrás da mulher ciumenta... para garantir seu pedaço no cobertor.

E eu olho para a rua vazia e para o ônibus que não veio e penso se terei meu espaço no cobertor. Um vento traz o cheiro da rua e do lixo ainda exposto, minhas narinas tentam captar um resquício de ar. Engasgo e a velha ao meu lado oferece um lenço. Não obrigada.

Finalmente chega o velho solitário e barulhento. Boa noite para o motorista, com vista cansada mas ainda um sorrisinho.

Entre sacolejos vou seguindo. O som da chave em casa desperta o vizinho que inicia sua crise de tosse. Lar doce lar. Um café semi-quente e um banho entre gotas e vapor.

E o alívio traz o sono, um passo para o sonho.