E foi naquele dia em que dois homens grandes e minúsculos acostumados a se justificar por tudo e por todos se encontraram. E quando se uniram surgiu um enorme balão que foi inflando e crescendo até suas bases não suportarem mais.
E nesse dia - fazia sol - o balão estourou e o que se sucedeu foi uma chuva de respostas que caíam sem parar nos telhados e carros, batendo contra janelas dos escritórios superaquecidos e superesfriados... E caíam sobre os lixos e ruas, escoando nos esgotos entupidos de tantas sugestões... Estúpidos engodos.
E caíam sobre as cabeças atordoadas das pessoas que corriam e se sacudiam como cães, rindo e enchendo seus bolsos que já se abarrotavam de dúvidas.
"... gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro, até desistir. Assim é a noite, é isso o que ela faz com você; eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão". (Jack Kerouac, On the road)
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Micro psicose cotidiana
Ela chegou em casa irada, cansada, arremessou a bolsa bordada, inchada, acertou na janela fechada...
E quebrou o vidro que acertou no cachorro de três patas, que furou o olho e caiu sangrando até o fim.
Agora ela descansa todo dia apoiada na soleira com vista para a mancha vermelha.
E quebrou o vidro que acertou no cachorro de três patas, que furou o olho e caiu sangrando até o fim.
Agora ela descansa todo dia apoiada na soleira com vista para a mancha vermelha.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Na esquina
Cidade feia, metade já está dormindo, metade já está acordando. E eu lá, de canto, esperando o ônibus. Acendo um cigarro, chamada imediata para o velho de calças rasgadas que logo vem me pedir um fila. Fila não se nega, se dá contra a vontade, mas não se nega.
A mulher ciumenta vem tirar satisfações e eu abano com sorrisinho blasé. Quem disse que tem idade para sentir ciumes? Ele me olha, faz cara feia e tenta me confidenciar algo, eu não entendo nada e aceno que sim. Ele se contenta com isso e some na noite... atrás da mulher ciumenta... para garantir seu pedaço no cobertor.
E eu olho para a rua vazia e para o ônibus que não veio e penso se terei meu espaço no cobertor. Um vento traz o cheiro da rua e do lixo ainda exposto, minhas narinas tentam captar um resquício de ar. Engasgo e a velha ao meu lado oferece um lenço. Não obrigada.
Finalmente chega o velho solitário e barulhento. Boa noite para o motorista, com vista cansada mas ainda um sorrisinho.
Entre sacolejos vou seguindo. O som da chave em casa desperta o vizinho que inicia sua crise de tosse. Lar doce lar. Um café semi-quente e um banho entre gotas e vapor.
E o alívio traz o sono, um passo para o sonho.
A mulher ciumenta vem tirar satisfações e eu abano com sorrisinho blasé. Quem disse que tem idade para sentir ciumes? Ele me olha, faz cara feia e tenta me confidenciar algo, eu não entendo nada e aceno que sim. Ele se contenta com isso e some na noite... atrás da mulher ciumenta... para garantir seu pedaço no cobertor.
E eu olho para a rua vazia e para o ônibus que não veio e penso se terei meu espaço no cobertor. Um vento traz o cheiro da rua e do lixo ainda exposto, minhas narinas tentam captar um resquício de ar. Engasgo e a velha ao meu lado oferece um lenço. Não obrigada.
Finalmente chega o velho solitário e barulhento. Boa noite para o motorista, com vista cansada mas ainda um sorrisinho.
Entre sacolejos vou seguindo. O som da chave em casa desperta o vizinho que inicia sua crise de tosse. Lar doce lar. Um café semi-quente e um banho entre gotas e vapor.
E o alívio traz o sono, um passo para o sonho.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Castanho-esverdeado
"Você não consegue enxergar nada além do reflexo de si mesma no seu olho se olhar direto para a superfície. É preciso um pouco de esforço para ultrapassar esta sensível camada que separa o você-do-outro e o você-profundo".
Anna caminhava calmamente nas margens do lago se equilibrando como fazia quando era menina... As sábias palavras da mãe brotavam de sua memória mais preservada. A brisa matinal do alto da serra lhe agradava, se chocava com o calor do ar que soltava dos pulmões provocando uma pequena fumaça branca. Anna preferia o frio porque a fazia sentir seu calor. O quentinho agradável do seu corpo a fazia lembrar quem era.
Há tantos anos não via aquele lago, agora de águas um pouco turvas, mas ainda com o toque esverdeado lutando para manter-se no trono.
"Você roubou o verde do lago e o guardou bem aqui nos seus olhos, eu consigo ver o lago em você onde quer que você esteja".
Anna sorria toda vez que alguma frase lhe voltava à mente, conseguia ouvir ainda aquela voz doce e firme, que transformava tudo em verdade absoluta. As palavras dela abraçavam, acariciavam, repreendiam também... mas agora até isso era suave.
Alguém surgiu por entre as árvores, pela silhueta pode reconhecer. Seu irmão agora tão alto, tão dono de si. Ele aproximou-se pela outra borda do lago e pegou uma pedra. Anna riu diante da lembrança e pôs-se a correr, não antes de evitar os respingos de água no cabelo.
Horas depois e aquela cena já estava distante, Anna retornando ao velho apartamento barulhento. Potes de comida estragada espalhavam-se pela cozinha e, no quarto, ainda a cama por fazer.
E quando poderia imaginar que sua sabedoria ia além do seu tempo? E quando poderia imaginar que o esforço para ser o seu oposto a manteria nessa dimensão sem tempo definido? E ainda... querendo voltar e recuperar o que sempre recusou.
Anna sentou-se no chão empoeirado, encarou-se no espelho e pôs-se a procurar o verde do lago.
Anna caminhava calmamente nas margens do lago se equilibrando como fazia quando era menina... As sábias palavras da mãe brotavam de sua memória mais preservada. A brisa matinal do alto da serra lhe agradava, se chocava com o calor do ar que soltava dos pulmões provocando uma pequena fumaça branca. Anna preferia o frio porque a fazia sentir seu calor. O quentinho agradável do seu corpo a fazia lembrar quem era.
Há tantos anos não via aquele lago, agora de águas um pouco turvas, mas ainda com o toque esverdeado lutando para manter-se no trono.
"Você roubou o verde do lago e o guardou bem aqui nos seus olhos, eu consigo ver o lago em você onde quer que você esteja".
Anna sorria toda vez que alguma frase lhe voltava à mente, conseguia ouvir ainda aquela voz doce e firme, que transformava tudo em verdade absoluta. As palavras dela abraçavam, acariciavam, repreendiam também... mas agora até isso era suave.
Alguém surgiu por entre as árvores, pela silhueta pode reconhecer. Seu irmão agora tão alto, tão dono de si. Ele aproximou-se pela outra borda do lago e pegou uma pedra. Anna riu diante da lembrança e pôs-se a correr, não antes de evitar os respingos de água no cabelo.
Horas depois e aquela cena já estava distante, Anna retornando ao velho apartamento barulhento. Potes de comida estragada espalhavam-se pela cozinha e, no quarto, ainda a cama por fazer.
E quando poderia imaginar que sua sabedoria ia além do seu tempo? E quando poderia imaginar que o esforço para ser o seu oposto a manteria nessa dimensão sem tempo definido? E ainda... querendo voltar e recuperar o que sempre recusou.
Anna sentou-se no chão empoeirado, encarou-se no espelho e pôs-se a procurar o verde do lago.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Hoje acordei maior
Hoje acordei sem caber no colchão. O quarto não era menos que um grão de areia e quando olhei para baixo, vi o mundo como uma bola de gude.
Estiquei a mão e alcancei velhos sonhos, há tempos eles se foram em balões de gás e quase os havia perdido de vista. Mas hoje acordei maior e pude tomá-los novamente nas mãos. Com um sopro afastei a poeira e eles estavam ainda lá. Poli com a manga do casaco e logo retornou seu brilho... Pareciam ainda maiores, ou talvez meus olhos hoje tão grandes tenham visto-os de outra forma.
Voltei a olhar para o mundo, não mais que um ponto cinza-azulado abaixo do meu pé. Me agachei e encontrei-me em pedaços perdidos... E com uma pinça juntei-me tal qual um quebra-cabeça. Uma couraça minúscula que até ontem era eu.
E então veio o alívio e com meus pulmões hoje maiores aspirei o novo ar. Olhei para o lado certa de que a encontraria. E lá estava você com seu sorriso dizendo "eu sabia o tempo todo". Estendi minha mão e ao tocar a sua senti crescer um pouco mais...
E de mãos dadas fomos gigantes.
Estiquei a mão e alcancei velhos sonhos, há tempos eles se foram em balões de gás e quase os havia perdido de vista. Mas hoje acordei maior e pude tomá-los novamente nas mãos. Com um sopro afastei a poeira e eles estavam ainda lá. Poli com a manga do casaco e logo retornou seu brilho... Pareciam ainda maiores, ou talvez meus olhos hoje tão grandes tenham visto-os de outra forma.
Voltei a olhar para o mundo, não mais que um ponto cinza-azulado abaixo do meu pé. Me agachei e encontrei-me em pedaços perdidos... E com uma pinça juntei-me tal qual um quebra-cabeça. Uma couraça minúscula que até ontem era eu.
E então veio o alívio e com meus pulmões hoje maiores aspirei o novo ar. Olhei para o lado certa de que a encontraria. E lá estava você com seu sorriso dizendo "eu sabia o tempo todo". Estendi minha mão e ao tocar a sua senti crescer um pouco mais...
E de mãos dadas fomos gigantes.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Eternidade
Ela já se sentindo meio cansada seguia arrastando
sua enorme caixa cheia de quinquilharias.
De tempos em tempos o sol engolia sua sombra
e gotas de si escorriam na face que de fora parecia sorrir,
expressão de dor tão enganadora.
Da caixa pesada e desengonçada
de vez em qdo caia um pedaço de ontem.
Mas já percorrera tantos quilômetros
arrastando aquilo,
não entendia pq nunca
diminuia o peso.
Ao contrário,
cada vez que parava para descansar,
o peso aumentava.
Só entendia que seguiria arrastando aquilo por dias e dias e dias...
e que a vida era muito longa.
sua enorme caixa cheia de quinquilharias.
De tempos em tempos o sol engolia sua sombra
e gotas de si escorriam na face que de fora parecia sorrir,
expressão de dor tão enganadora.
Da caixa pesada e desengonçada
de vez em qdo caia um pedaço de ontem.
Mas já percorrera tantos quilômetros
arrastando aquilo,
não entendia pq nunca
diminuia o peso.
Ao contrário,
cada vez que parava para descansar,
o peso aumentava.
Só entendia que seguiria arrastando aquilo por dias e dias e dias...
e que a vida era muito longa.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Loucura de ser
Eu bem que lutei contra, mas me forçaram a estar aqui. Tentei revidar, mas fui brutalmente coagida. Exigi meu rosto, meu mapa de memórias, mas sofri severas represálias...
Aos 15 anos impuseram-me a ordem, e nada do que eu fizesse era mais do que dar voltas no mesmo lugar e chutes esgotados no vazio... até aceitar. Aos 20 forçaram-me o amor, logo eu que não via formas e cores e bolsos e necessidades. Aos 25 vi-me sem poder me ver, olhei-me no espelho sem coragem de encarar. Pois além de toda imposição, fizeram-me acreditar covarde.
Aos 35 cercaram-me de números e plásticos. Encurralaram-me na esquina suja e deram-me essa única opção. Enquadre-se para ser. E tantos anos perdidos se foram em assinaturas deprimentes, rabiscos incertos de mãos tremidas pela falta do crer. Arrastando-me para os 50 até o sossego foi-me vendido.
Hoje não sou dona do meu perfume, do meu sexo, não sou dona do meu sono. Hoje ando pela casa tocando os móveis e eles voltam-se para mim com feições monstruosas dizendo-me coisas feias, cuspindo fumaça... Os galhos das árvores no meu jardim invadem a sala pela janela e tentam arrancar minhas orelhas. As pedras da calçada se lançam contra minhas pernas e abrem feridas eternas. Não é a dor, é o sangue quase sem cor que não para de escorrer pelos meus joelhos.
Quando era pequena ainda, quando ainda era... lembro-me de ouvir dizer que a minha verdade é tudo o que sempre vou ter. Pois ando de quarto em quarto procurando-a e não lembro onde a larguei. Quanto mais penso nela, menos a tenho. Daqui a pouco nem mesmo a lembrança de tê-la existirá e aí eles poderão dizer que mais um trabalho foi concluído.
Enquanto isso, jogo tomates podres no papel de parede florido e encho a casa de porta-retratos vazios esperando o tapete esgaçar para que me mandem comprar outro. E quem sabe onde isso vai dar?
Quem sabe se vai realmente dar?
Aos 15 anos impuseram-me a ordem, e nada do que eu fizesse era mais do que dar voltas no mesmo lugar e chutes esgotados no vazio... até aceitar. Aos 20 forçaram-me o amor, logo eu que não via formas e cores e bolsos e necessidades. Aos 25 vi-me sem poder me ver, olhei-me no espelho sem coragem de encarar. Pois além de toda imposição, fizeram-me acreditar covarde.
Aos 35 cercaram-me de números e plásticos. Encurralaram-me na esquina suja e deram-me essa única opção. Enquadre-se para ser. E tantos anos perdidos se foram em assinaturas deprimentes, rabiscos incertos de mãos tremidas pela falta do crer. Arrastando-me para os 50 até o sossego foi-me vendido.
Hoje não sou dona do meu perfume, do meu sexo, não sou dona do meu sono. Hoje ando pela casa tocando os móveis e eles voltam-se para mim com feições monstruosas dizendo-me coisas feias, cuspindo fumaça... Os galhos das árvores no meu jardim invadem a sala pela janela e tentam arrancar minhas orelhas. As pedras da calçada se lançam contra minhas pernas e abrem feridas eternas. Não é a dor, é o sangue quase sem cor que não para de escorrer pelos meus joelhos.
Quando era pequena ainda, quando ainda era... lembro-me de ouvir dizer que a minha verdade é tudo o que sempre vou ter. Pois ando de quarto em quarto procurando-a e não lembro onde a larguei. Quanto mais penso nela, menos a tenho. Daqui a pouco nem mesmo a lembrança de tê-la existirá e aí eles poderão dizer que mais um trabalho foi concluído.
Enquanto isso, jogo tomates podres no papel de parede florido e encho a casa de porta-retratos vazios esperando o tapete esgaçar para que me mandem comprar outro. E quem sabe onde isso vai dar?
Quem sabe se vai realmente dar?
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