Cidade feia, metade já está dormindo, metade já está acordando. E eu lá, de canto, esperando o ônibus. Acendo um cigarro, chamada imediata para o velho de calças rasgadas que logo vem me pedir um fila. Fila não se nega, se dá contra a vontade, mas não se nega.
A mulher ciumenta vem tirar satisfações e eu abano com sorrisinho blasé. Quem disse que tem idade para sentir ciumes? Ele me olha, faz cara feia e tenta me confidenciar algo, eu não entendo nada e aceno que sim. Ele se contenta com isso e some na noite... atrás da mulher ciumenta... para garantir seu pedaço no cobertor.
E eu olho para a rua vazia e para o ônibus que não veio e penso se terei meu espaço no cobertor. Um vento traz o cheiro da rua e do lixo ainda exposto, minhas narinas tentam captar um resquício de ar. Engasgo e a velha ao meu lado oferece um lenço. Não obrigada.
Finalmente chega o velho solitário e barulhento. Boa noite para o motorista, com vista cansada mas ainda um sorrisinho.
Entre sacolejos vou seguindo. O som da chave em casa desperta o vizinho que inicia sua crise de tosse. Lar doce lar. Um café semi-quente e um banho entre gotas e vapor.
E o alívio traz o sono, um passo para o sonho.
"... gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro, até desistir. Assim é a noite, é isso o que ela faz com você; eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão". (Jack Kerouac, On the road)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Castanho-esverdeado
"Você não consegue enxergar nada além do reflexo de si mesma no seu olho se olhar direto para a superfície. É preciso um pouco de esforço para ultrapassar esta sensível camada que separa o você-do-outro e o você-profundo".
Anna caminhava calmamente nas margens do lago se equilibrando como fazia quando era menina... As sábias palavras da mãe brotavam de sua memória mais preservada. A brisa matinal do alto da serra lhe agradava, se chocava com o calor do ar que soltava dos pulmões provocando uma pequena fumaça branca. Anna preferia o frio porque a fazia sentir seu calor. O quentinho agradável do seu corpo a fazia lembrar quem era.
Há tantos anos não via aquele lago, agora de águas um pouco turvas, mas ainda com o toque esverdeado lutando para manter-se no trono.
"Você roubou o verde do lago e o guardou bem aqui nos seus olhos, eu consigo ver o lago em você onde quer que você esteja".
Anna sorria toda vez que alguma frase lhe voltava à mente, conseguia ouvir ainda aquela voz doce e firme, que transformava tudo em verdade absoluta. As palavras dela abraçavam, acariciavam, repreendiam também... mas agora até isso era suave.
Alguém surgiu por entre as árvores, pela silhueta pode reconhecer. Seu irmão agora tão alto, tão dono de si. Ele aproximou-se pela outra borda do lago e pegou uma pedra. Anna riu diante da lembrança e pôs-se a correr, não antes de evitar os respingos de água no cabelo.
Horas depois e aquela cena já estava distante, Anna retornando ao velho apartamento barulhento. Potes de comida estragada espalhavam-se pela cozinha e, no quarto, ainda a cama por fazer.
E quando poderia imaginar que sua sabedoria ia além do seu tempo? E quando poderia imaginar que o esforço para ser o seu oposto a manteria nessa dimensão sem tempo definido? E ainda... querendo voltar e recuperar o que sempre recusou.
Anna sentou-se no chão empoeirado, encarou-se no espelho e pôs-se a procurar o verde do lago.
Anna caminhava calmamente nas margens do lago se equilibrando como fazia quando era menina... As sábias palavras da mãe brotavam de sua memória mais preservada. A brisa matinal do alto da serra lhe agradava, se chocava com o calor do ar que soltava dos pulmões provocando uma pequena fumaça branca. Anna preferia o frio porque a fazia sentir seu calor. O quentinho agradável do seu corpo a fazia lembrar quem era.
Há tantos anos não via aquele lago, agora de águas um pouco turvas, mas ainda com o toque esverdeado lutando para manter-se no trono.
"Você roubou o verde do lago e o guardou bem aqui nos seus olhos, eu consigo ver o lago em você onde quer que você esteja".
Anna sorria toda vez que alguma frase lhe voltava à mente, conseguia ouvir ainda aquela voz doce e firme, que transformava tudo em verdade absoluta. As palavras dela abraçavam, acariciavam, repreendiam também... mas agora até isso era suave.
Alguém surgiu por entre as árvores, pela silhueta pode reconhecer. Seu irmão agora tão alto, tão dono de si. Ele aproximou-se pela outra borda do lago e pegou uma pedra. Anna riu diante da lembrança e pôs-se a correr, não antes de evitar os respingos de água no cabelo.
Horas depois e aquela cena já estava distante, Anna retornando ao velho apartamento barulhento. Potes de comida estragada espalhavam-se pela cozinha e, no quarto, ainda a cama por fazer.
E quando poderia imaginar que sua sabedoria ia além do seu tempo? E quando poderia imaginar que o esforço para ser o seu oposto a manteria nessa dimensão sem tempo definido? E ainda... querendo voltar e recuperar o que sempre recusou.
Anna sentou-se no chão empoeirado, encarou-se no espelho e pôs-se a procurar o verde do lago.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Hoje acordei maior
Hoje acordei sem caber no colchão. O quarto não era menos que um grão de areia e quando olhei para baixo, vi o mundo como uma bola de gude.
Estiquei a mão e alcancei velhos sonhos, há tempos eles se foram em balões de gás e quase os havia perdido de vista. Mas hoje acordei maior e pude tomá-los novamente nas mãos. Com um sopro afastei a poeira e eles estavam ainda lá. Poli com a manga do casaco e logo retornou seu brilho... Pareciam ainda maiores, ou talvez meus olhos hoje tão grandes tenham visto-os de outra forma.
Voltei a olhar para o mundo, não mais que um ponto cinza-azulado abaixo do meu pé. Me agachei e encontrei-me em pedaços perdidos... E com uma pinça juntei-me tal qual um quebra-cabeça. Uma couraça minúscula que até ontem era eu.
E então veio o alívio e com meus pulmões hoje maiores aspirei o novo ar. Olhei para o lado certa de que a encontraria. E lá estava você com seu sorriso dizendo "eu sabia o tempo todo". Estendi minha mão e ao tocar a sua senti crescer um pouco mais...
E de mãos dadas fomos gigantes.
Estiquei a mão e alcancei velhos sonhos, há tempos eles se foram em balões de gás e quase os havia perdido de vista. Mas hoje acordei maior e pude tomá-los novamente nas mãos. Com um sopro afastei a poeira e eles estavam ainda lá. Poli com a manga do casaco e logo retornou seu brilho... Pareciam ainda maiores, ou talvez meus olhos hoje tão grandes tenham visto-os de outra forma.
Voltei a olhar para o mundo, não mais que um ponto cinza-azulado abaixo do meu pé. Me agachei e encontrei-me em pedaços perdidos... E com uma pinça juntei-me tal qual um quebra-cabeça. Uma couraça minúscula que até ontem era eu.
E então veio o alívio e com meus pulmões hoje maiores aspirei o novo ar. Olhei para o lado certa de que a encontraria. E lá estava você com seu sorriso dizendo "eu sabia o tempo todo". Estendi minha mão e ao tocar a sua senti crescer um pouco mais...
E de mãos dadas fomos gigantes.
terça-feira, 29 de julho de 2008
Eternidade
Ela já se sentindo meio cansada seguia arrastando
sua enorme caixa cheia de quinquilharias.
De tempos em tempos o sol engolia sua sombra
e gotas de si escorriam na face que de fora parecia sorrir,
expressão de dor tão enganadora.
Da caixa pesada e desengonçada
de vez em qdo caia um pedaço de ontem.
Mas já percorrera tantos quilômetros
arrastando aquilo,
não entendia pq nunca
diminuia o peso.
Ao contrário,
cada vez que parava para descansar,
o peso aumentava.
Só entendia que seguiria arrastando aquilo por dias e dias e dias...
e que a vida era muito longa.
sua enorme caixa cheia de quinquilharias.
De tempos em tempos o sol engolia sua sombra
e gotas de si escorriam na face que de fora parecia sorrir,
expressão de dor tão enganadora.
Da caixa pesada e desengonçada
de vez em qdo caia um pedaço de ontem.
Mas já percorrera tantos quilômetros
arrastando aquilo,
não entendia pq nunca
diminuia o peso.
Ao contrário,
cada vez que parava para descansar,
o peso aumentava.
Só entendia que seguiria arrastando aquilo por dias e dias e dias...
e que a vida era muito longa.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Loucura de ser
Eu bem que lutei contra, mas me forçaram a estar aqui. Tentei revidar, mas fui brutalmente coagida. Exigi meu rosto, meu mapa de memórias, mas sofri severas represálias...
Aos 15 anos impuseram-me a ordem, e nada do que eu fizesse era mais do que dar voltas no mesmo lugar e chutes esgotados no vazio... até aceitar. Aos 20 forçaram-me o amor, logo eu que não via formas e cores e bolsos e necessidades. Aos 25 vi-me sem poder me ver, olhei-me no espelho sem coragem de encarar. Pois além de toda imposição, fizeram-me acreditar covarde.
Aos 35 cercaram-me de números e plásticos. Encurralaram-me na esquina suja e deram-me essa única opção. Enquadre-se para ser. E tantos anos perdidos se foram em assinaturas deprimentes, rabiscos incertos de mãos tremidas pela falta do crer. Arrastando-me para os 50 até o sossego foi-me vendido.
Hoje não sou dona do meu perfume, do meu sexo, não sou dona do meu sono. Hoje ando pela casa tocando os móveis e eles voltam-se para mim com feições monstruosas dizendo-me coisas feias, cuspindo fumaça... Os galhos das árvores no meu jardim invadem a sala pela janela e tentam arrancar minhas orelhas. As pedras da calçada se lançam contra minhas pernas e abrem feridas eternas. Não é a dor, é o sangue quase sem cor que não para de escorrer pelos meus joelhos.
Quando era pequena ainda, quando ainda era... lembro-me de ouvir dizer que a minha verdade é tudo o que sempre vou ter. Pois ando de quarto em quarto procurando-a e não lembro onde a larguei. Quanto mais penso nela, menos a tenho. Daqui a pouco nem mesmo a lembrança de tê-la existirá e aí eles poderão dizer que mais um trabalho foi concluído.
Enquanto isso, jogo tomates podres no papel de parede florido e encho a casa de porta-retratos vazios esperando o tapete esgaçar para que me mandem comprar outro. E quem sabe onde isso vai dar?
Quem sabe se vai realmente dar?
Aos 15 anos impuseram-me a ordem, e nada do que eu fizesse era mais do que dar voltas no mesmo lugar e chutes esgotados no vazio... até aceitar. Aos 20 forçaram-me o amor, logo eu que não via formas e cores e bolsos e necessidades. Aos 25 vi-me sem poder me ver, olhei-me no espelho sem coragem de encarar. Pois além de toda imposição, fizeram-me acreditar covarde.
Aos 35 cercaram-me de números e plásticos. Encurralaram-me na esquina suja e deram-me essa única opção. Enquadre-se para ser. E tantos anos perdidos se foram em assinaturas deprimentes, rabiscos incertos de mãos tremidas pela falta do crer. Arrastando-me para os 50 até o sossego foi-me vendido.
Hoje não sou dona do meu perfume, do meu sexo, não sou dona do meu sono. Hoje ando pela casa tocando os móveis e eles voltam-se para mim com feições monstruosas dizendo-me coisas feias, cuspindo fumaça... Os galhos das árvores no meu jardim invadem a sala pela janela e tentam arrancar minhas orelhas. As pedras da calçada se lançam contra minhas pernas e abrem feridas eternas. Não é a dor, é o sangue quase sem cor que não para de escorrer pelos meus joelhos.
Quando era pequena ainda, quando ainda era... lembro-me de ouvir dizer que a minha verdade é tudo o que sempre vou ter. Pois ando de quarto em quarto procurando-a e não lembro onde a larguei. Quanto mais penso nela, menos a tenho. Daqui a pouco nem mesmo a lembrança de tê-la existirá e aí eles poderão dizer que mais um trabalho foi concluído.
Enquanto isso, jogo tomates podres no papel de parede florido e encho a casa de porta-retratos vazios esperando o tapete esgaçar para que me mandem comprar outro. E quem sabe onde isso vai dar?
Quem sabe se vai realmente dar?
sábado, 17 de maio de 2008
Elline - 1815
Caminhando pelas calçadas de pedras soltas a impressão que se tinha era de que se tratava de uma cidade fantasma, mas alguns passos adiante pude ouvir um murmúrio crescente. Ao dobrar a esquina me deparei com a população excitada esbarrando-se e acotovelando-se na porta do salão de música da praça principal. A curiosidade foi mais forte, aproximei-me da multidão tentando identificar as conversas sussurradas em tom de fofoca.
Lá dentro, longe das sobrancelhas arqueadas e mãos agitadas, Elline dava pequenos passos por entre as cadeiras da platéia vazia. A cada troca de perna, o leve farfalhar das saias produzia um som intimidador. O teto era alto demais para a pequena garotinha ruiva. Ela erguia a cabeça e breve vertigem forçava-a a buscar apoio nos assentos de forro imperial.
O som dos passos vindos da sala ao lado ecoaram no salão. Elline voltou-se e avistou ao fundo seu acompanhante de viagem.
- Miss Elline, precisamos ir.
- Não posso deixar o anjo sozinho, caro senhor.
- Anjo?
A garotinha apontou o dedo para os vitrais mais altos da capela à direita do salão. No espaço central estava a imagem de um anjo de bochechas rosadas e olhar piedoso, logo abaixo a inscrição "Ele está convosco". Elline não entendia aquela língua, nem tampouco sabia ler, mas compreendia que aquela fala era para ela, e com seu pensamento ingênuo tentava responder-lhe o agrado. O acompanhante ponderou, consultou o relógio de bolso e decidiu-se por deixar a menina em paz por mais uns instantes.
Sozinha na capela, ela conversa com o anjo.
- Se falar comigo, meu querido anjo, posso te ouvir. Compreendo tua angústia. Também eu gostaria de estar livre para brincar no jardim, colher flores amarelas e comer frutas saborosas ao fim do dia. Mas sei que meus desejos são muito pouco para ti. Tens asas e um coração imenso, de que lhe servem se nada podes ser além de um luminoso vitral?
Pequenas lágrimas desprendiam-se de seus olhos acinzentados.
- Mas saiba, puro anjinho, estás no alto!Para mim é como estar no céu. De onde estás, podes me ver aqui tão pequena, podes ver quem entra e quem sai, podes ouvir a melodia da orquestra nos dias de festa, podes saborear uma noite quente e estrelada. Já eu aqui tão pequena neste mundo tão grande, o que posso fazer? Aqueles que lá fora me espreitam não esperam me ver, querem sim uma chance de arrancar-me um fio de cabelo, de contar aos seus que possuem o fio real nas mãos... Meu amado anjo, sei que entendes minha dor, pois da tua entendo muito bem. E quando eu crescer, a coroa se agarrará ao meu corpo como pesados grilhões. Pouco mais do que hoje serei, mas serei ouvida então. Aguarde-me neste dia, meu amigo, pois voltarei para te libertar. Oh anjo, se pudesse te livrar das grades me concederia um desejo? Dê-me a língua-mãe para que todos me escutem, dê-me braços gigantes para que a todos eu possa acolher. Dê-me asas como as tuas, para que eu possa chegar mais rápido e atravessar os mares... Dê-me o manto invisível, para que eu possa correr atrás das borboletas nas manhãs de primavera.
O acompanhante suspira e volta devagar para onde a pequena se encontra. Ela está quieta agora, de cabeça baixa, deixando os cachos vermelhos caírem pelos ombros. Facilmente ele a toma nos braços e a leva pelos fundos, fugindo da multidão.
Lá dentro, longe das sobrancelhas arqueadas e mãos agitadas, Elline dava pequenos passos por entre as cadeiras da platéia vazia. A cada troca de perna, o leve farfalhar das saias produzia um som intimidador. O teto era alto demais para a pequena garotinha ruiva. Ela erguia a cabeça e breve vertigem forçava-a a buscar apoio nos assentos de forro imperial.
O som dos passos vindos da sala ao lado ecoaram no salão. Elline voltou-se e avistou ao fundo seu acompanhante de viagem.
- Miss Elline, precisamos ir.
- Não posso deixar o anjo sozinho, caro senhor.
- Anjo?
A garotinha apontou o dedo para os vitrais mais altos da capela à direita do salão. No espaço central estava a imagem de um anjo de bochechas rosadas e olhar piedoso, logo abaixo a inscrição "Ele está convosco". Elline não entendia aquela língua, nem tampouco sabia ler, mas compreendia que aquela fala era para ela, e com seu pensamento ingênuo tentava responder-lhe o agrado. O acompanhante ponderou, consultou o relógio de bolso e decidiu-se por deixar a menina em paz por mais uns instantes.
Sozinha na capela, ela conversa com o anjo.
- Se falar comigo, meu querido anjo, posso te ouvir. Compreendo tua angústia. Também eu gostaria de estar livre para brincar no jardim, colher flores amarelas e comer frutas saborosas ao fim do dia. Mas sei que meus desejos são muito pouco para ti. Tens asas e um coração imenso, de que lhe servem se nada podes ser além de um luminoso vitral?
Pequenas lágrimas desprendiam-se de seus olhos acinzentados.
- Mas saiba, puro anjinho, estás no alto!Para mim é como estar no céu. De onde estás, podes me ver aqui tão pequena, podes ver quem entra e quem sai, podes ouvir a melodia da orquestra nos dias de festa, podes saborear uma noite quente e estrelada. Já eu aqui tão pequena neste mundo tão grande, o que posso fazer? Aqueles que lá fora me espreitam não esperam me ver, querem sim uma chance de arrancar-me um fio de cabelo, de contar aos seus que possuem o fio real nas mãos... Meu amado anjo, sei que entendes minha dor, pois da tua entendo muito bem. E quando eu crescer, a coroa se agarrará ao meu corpo como pesados grilhões. Pouco mais do que hoje serei, mas serei ouvida então. Aguarde-me neste dia, meu amigo, pois voltarei para te libertar. Oh anjo, se pudesse te livrar das grades me concederia um desejo? Dê-me a língua-mãe para que todos me escutem, dê-me braços gigantes para que a todos eu possa acolher. Dê-me asas como as tuas, para que eu possa chegar mais rápido e atravessar os mares... Dê-me o manto invisível, para que eu possa correr atrás das borboletas nas manhãs de primavera.
O acompanhante suspira e volta devagar para onde a pequena se encontra. Ela está quieta agora, de cabeça baixa, deixando os cachos vermelhos caírem pelos ombros. Facilmente ele a toma nos braços e a leva pelos fundos, fugindo da multidão.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O encontro
Mello perdeu o ar ao olhar distraídamente pelo vidro fechado do carro naquela manhã tão igual a qualquer outra. Chegou a duvidar do que via, geralmente se perdia em pensamentos e alucinava com lembranças conforme o clima, a música no carro, etc. Mas não foi o caso, a cena era tão real quanto a garoa que caía sem cessar e o caos no trânsito por ela provocado naquele momento.
Lá estava Vizzo, sim era ele, tinha certeza. O corpo encurvado, olhando para o chão, roupas pesadas, andando com um gingado particular... Era ele, totalmente diferente, mas era ele.
Mello teve ímpetos de descer do carro, correr até lá, sacudir o homem e dar um abraço apertado. Quis arrastá-lo para um bar, dividir uma cerveja e contar-lhe sua vida, saber da vida dele... coisas que há muito não fazia. Mas, ao contrário, ficou lá parado de queixo caído, tentando imaginar tudo o que poderia ter-lhe acontecido para protagonizar aquela cena.
Como a fila de carros estava parada, lá ficou Mello analisando e pensando...
O dia mal clareou e logo a garoa tratou de escurecê-lo, pintando uma paisagem triste e charmosa de inverno. Peguei meu casaco largado na cadeira e saí batendo a porta. "É interessante não ter mais malas para carregar". Saí do hotel debaixo das reclamações da proprietária, ela não me queria mais lá. "É estranho não ter mais ninguém para compartilhar".
Andei um pouco na rua sem rumo algum. Meti a mão no bolso em busca de um trocado para o café da manhã, encontrei míseras moedas. Desisti e segui andando. Esbarrei numa senhora e ela entrou em pânico, sua reação me assustou. Ela gritou e saiu correndo, agarrada à bolsa. Parei diante de uma vitrine e observei meu reflexo: quando foi que parei de pensar em mim? quando foi que me abandonei dessa forma?
A vida não é fácil quando tomamos decisões erradas, mas... afinal, há fórmula que facilite a vida? Meus atos me afastaram do mundo e hoje estou aqui sem rumo, sem objetivos q vão além da próxima refeição. Meus talentos se enterraram no asfalto, meu orgulho desceu pela privada e meu sangue... desistiu de correr pelas minhas veias, disse-me em sonho que não lhe valia mais a pena trabalhar por mim.
Foi então que me vi nestes trapos sujos e fedorentos, com a barba encobrindo o ex-sorriso, bochechas magras e pálidas, cabelo imundo colado no pescoço pelo suor de vários dias... Respirei fundo e desisti de pensar, foi pensando que vim parar aqui afinal.
Foi então que olhei para a rua e viu aquela cena, quase não acreditei. A fila de carros parada, vidros escuros fechados... mas reconheci aquele rosto, não tinha como não reconhecer. Será que ele me viu? Estava tão diferente, tão bonito e sofisticado naquele carro importado, estaria indo para o trabalho? Certo que sim.
Por um instante quis correr e bater no vidro, arrancar-lhe do carro e abraçá-lo forte. Quanta saudade daquele tempo de cumplicidade... Mas a vergonha de mim mesmo forçou meu olhar para o chão e mesmo com o coração saltando pela boca tentei passar despercebido. Pior do que ser eu é deixar meu próprio irmão ver no que me tornei.
O sinal abriu, Mello arrancou com um frio na barriga. Sabia que jamais tornaria a vê-lo.
Lá estava Vizzo, sim era ele, tinha certeza. O corpo encurvado, olhando para o chão, roupas pesadas, andando com um gingado particular... Era ele, totalmente diferente, mas era ele.
Mello teve ímpetos de descer do carro, correr até lá, sacudir o homem e dar um abraço apertado. Quis arrastá-lo para um bar, dividir uma cerveja e contar-lhe sua vida, saber da vida dele... coisas que há muito não fazia. Mas, ao contrário, ficou lá parado de queixo caído, tentando imaginar tudo o que poderia ter-lhe acontecido para protagonizar aquela cena.
Como a fila de carros estava parada, lá ficou Mello analisando e pensando...
O dia mal clareou e logo a garoa tratou de escurecê-lo, pintando uma paisagem triste e charmosa de inverno. Peguei meu casaco largado na cadeira e saí batendo a porta. "É interessante não ter mais malas para carregar". Saí do hotel debaixo das reclamações da proprietária, ela não me queria mais lá. "É estranho não ter mais ninguém para compartilhar".
Andei um pouco na rua sem rumo algum. Meti a mão no bolso em busca de um trocado para o café da manhã, encontrei míseras moedas. Desisti e segui andando. Esbarrei numa senhora e ela entrou em pânico, sua reação me assustou. Ela gritou e saiu correndo, agarrada à bolsa. Parei diante de uma vitrine e observei meu reflexo: quando foi que parei de pensar em mim? quando foi que me abandonei dessa forma?
A vida não é fácil quando tomamos decisões erradas, mas... afinal, há fórmula que facilite a vida? Meus atos me afastaram do mundo e hoje estou aqui sem rumo, sem objetivos q vão além da próxima refeição. Meus talentos se enterraram no asfalto, meu orgulho desceu pela privada e meu sangue... desistiu de correr pelas minhas veias, disse-me em sonho que não lhe valia mais a pena trabalhar por mim.
Foi então que me vi nestes trapos sujos e fedorentos, com a barba encobrindo o ex-sorriso, bochechas magras e pálidas, cabelo imundo colado no pescoço pelo suor de vários dias... Respirei fundo e desisti de pensar, foi pensando que vim parar aqui afinal.
Foi então que olhei para a rua e viu aquela cena, quase não acreditei. A fila de carros parada, vidros escuros fechados... mas reconheci aquele rosto, não tinha como não reconhecer. Será que ele me viu? Estava tão diferente, tão bonito e sofisticado naquele carro importado, estaria indo para o trabalho? Certo que sim.
Por um instante quis correr e bater no vidro, arrancar-lhe do carro e abraçá-lo forte. Quanta saudade daquele tempo de cumplicidade... Mas a vergonha de mim mesmo forçou meu olhar para o chão e mesmo com o coração saltando pela boca tentei passar despercebido. Pior do que ser eu é deixar meu próprio irmão ver no que me tornei.
O sinal abriu, Mello arrancou com um frio na barriga. Sabia que jamais tornaria a vê-lo.
Assinar:
Postagens (Atom)