Mil idéias agitavam a mente do pequeno garotinho de cabelos escuros e olhos puxados iguais aos do pai. Mil movimentos a lhe provocar sorrisos, mil possibilidades de uma nova noite esgotada. Domingo ele pulava da cama com o ânimo que não lhe faria sentido anos depois. Expulsava as cobertas num chute, saltava em frente à janela e escancarava-a deixando o sol gritar na sua pele branquinha. Na casa de dois cômodos, todos eram movidos à luz solar e igualmente saltavam da cama sem o mesmo ânimo de antigamente.
Dia de feira. Parque de diversões para ele, comida no prato para todos. E lá seguia correndo com suas pernas de formiga para alcançar a pressa mau-humorada da mãe. No local, o irmão-grandão já ajeitava as barracas gritando palavrões e trocando piadas que ele não entenderia tão cedo. Logo a função começava e o mar de calçados pisados seguia em procissão desesperada, guiada pelos cotovelos e cabelos colados no pescoço.
O garotinho pulava atrás das bananas e tentava imitar as rimas. Mas o momento esperado chegava... Quando sua sombra esticada se aproximava do pé, lá ia ele correndo para a barraca de Josias, o cortador de carne. Agachava-se como um animal à espreita e ria baixinho de si mesmo.
Lá ao longe ele podia ver chegando... A multidão agitada se afastava e ele sentia-se capaz de atravessar muros com seus olhos. Sapatos rosados, pintados em flores, acima do chão. Alternavam-se em dança suave e não pediam licença. Eram cortejados, sabiam eles... o que lhes davam mais graça.
O garoto tinha aquele brilho no olhar que mais tarde desapareceria. E enrubecia-se todo ao olhar seus chinelinhos sujos tão indignos.
À noite, ao deitar, prometia em silêncio que um dia compraria sapatos bonitos de gente grande.
"... gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro, até desistir. Assim é a noite, é isso o que ela faz com você; eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão". (Jack Kerouac, On the road)
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Dois pares
Quando os pares se cruzam, o mundo fica estranho. Eram dois: um par de um azul intenso, de profundidade oceânica; o outro negro e malicioso, sempre dizendo mais.
Lá fora, vendavais carregados de folhas e poeira cinzenta circulavam em dança agitada... o prenúncio da desordem. Mas não importava. Importavam os raios, deles o par negro fugia, assustava-se sem reflexos, umidecia-se antes de tornar a fixar. Já o azul, destemido, continuava firme, sem interromper o trajeto imaginário, a linha que não se curvava.
Os negros diziam, com seu leve tom sedutor, que não sabiam mais... Os azuis rebatiam depressa, tentando destruir a incerteza, sem molejo para torná-la aliada.
Guerra divertida, a dos pares, que por inexplicável laço não conseguiam desviar. Revidavam-se em jogos eternos, sem nunca trair a si próprios. Afinal a traição era relativa, os negros valiam-se disso com toda propriedade. Enquanto que os azuis, não ingênuos, pescavam falseadas breves e daí tiravam seu poder.
E os ventos em revolta circulavam cada vez mais rápido, medindo forças, apertando o cerco. Ventos que sonham redemoinhos, que almejam tufões furiosos... nem assim os pares se afastam. Acabam-se as forças ao seu redor, a majestosa energia inabalável permanece em seu trono provando não haver possibilidade de derrota...
Não nesta vida, não quando os pares se cruzam.
Lá fora, vendavais carregados de folhas e poeira cinzenta circulavam em dança agitada... o prenúncio da desordem. Mas não importava. Importavam os raios, deles o par negro fugia, assustava-se sem reflexos, umidecia-se antes de tornar a fixar. Já o azul, destemido, continuava firme, sem interromper o trajeto imaginário, a linha que não se curvava.
Os negros diziam, com seu leve tom sedutor, que não sabiam mais... Os azuis rebatiam depressa, tentando destruir a incerteza, sem molejo para torná-la aliada.
Guerra divertida, a dos pares, que por inexplicável laço não conseguiam desviar. Revidavam-se em jogos eternos, sem nunca trair a si próprios. Afinal a traição era relativa, os negros valiam-se disso com toda propriedade. Enquanto que os azuis, não ingênuos, pescavam falseadas breves e daí tiravam seu poder.
E os ventos em revolta circulavam cada vez mais rápido, medindo forças, apertando o cerco. Ventos que sonham redemoinhos, que almejam tufões furiosos... nem assim os pares se afastam. Acabam-se as forças ao seu redor, a majestosa energia inabalável permanece em seu trono provando não haver possibilidade de derrota...
Não nesta vida, não quando os pares se cruzam.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Noite de festa
Foi quando todos dormiram e os motores do galpão ao lado foram desligados... foi quando o cachorro cessou seu latido e as madeiras do chão pararam de estalar... quando a pilha do relógio da parede acabou e quando os carros pararam de passar... Quando só o som da sua própria respiração ecoava na casa e parecia que poderia ser ouvido além do Atlântico.
Mas não era silêncio o que ela tinha ali, eram vozes, muitas vozes, acompanhadas de ruídos escandalosos e risadas altas debochadas e sarcásticas. Com os olhos colados no teto ela tentou definir quem dizia o quê e assim separar os diálogos em arquivos diferentes, talvez alternando para compreender o princípio daquilo... ou até mesmo para descobrir se teria fim.
E assim o sono não se encorajava, passava o tempo e as pupilas, acostumadas à escuridão da noite, brilhavam enormes como olhos de gato. Prendeu um espirro e ouviu um "saúde" de uma voz jovial e dinâmica. Sorriu e agradeceu com a cabeça. Aos poucos foi se enturmando na festa sonora, apurando as conversas e quase ousando se intrometer.
Pontualmente às 6h da manhã, no apartamento empoeirado do 4º andar, a luz atravessa a sala de estar para avisar que a vida recomeça lá fora. As despedidas acontecem todas ao mesmo tempo e, de repente, tudo está vazio mais uma vez. Sozinha na cama estreita com seus velhos lençóis ela fecha os olhos e adormece.
Na sua mente, copos vazios e restos de comida pelo chão aguardam a próxima noite de festa.
Mas não era silêncio o que ela tinha ali, eram vozes, muitas vozes, acompanhadas de ruídos escandalosos e risadas altas debochadas e sarcásticas. Com os olhos colados no teto ela tentou definir quem dizia o quê e assim separar os diálogos em arquivos diferentes, talvez alternando para compreender o princípio daquilo... ou até mesmo para descobrir se teria fim.
E assim o sono não se encorajava, passava o tempo e as pupilas, acostumadas à escuridão da noite, brilhavam enormes como olhos de gato. Prendeu um espirro e ouviu um "saúde" de uma voz jovial e dinâmica. Sorriu e agradeceu com a cabeça. Aos poucos foi se enturmando na festa sonora, apurando as conversas e quase ousando se intrometer.
Pontualmente às 6h da manhã, no apartamento empoeirado do 4º andar, a luz atravessa a sala de estar para avisar que a vida recomeça lá fora. As despedidas acontecem todas ao mesmo tempo e, de repente, tudo está vazio mais uma vez. Sozinha na cama estreita com seus velhos lençóis ela fecha os olhos e adormece.
Na sua mente, copos vazios e restos de comida pelo chão aguardam a próxima noite de festa.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Tumor
Hoje acordei com aquele gosto na boca de de vez quem quando... esse gosto me lembra de um velho conhecido hipocondríaco que dizia "sentir gosto e cheiro estranho é coisa de câncer". Pode ser sim. Um velho tumor que volta e meia dá uma crescidinha, monopoliza umas áreas do cérebro e resgata sabores e perfumes.
E talvez nesse dia cinzento típico dos poetas deprimidos eu tenha pensado demais, voltado no tempo, ansiando me jogar no depois só pra ver o que vai acontecer e depois retornar tranquila e tomar decisões certas.
A sensação é igual a de sempre e a de todo mundo. De quando eu me sentava na platéia e assistia ballet soluçando de tanta frustração. De quando, só de lembrar daquela discussão que virou barraco que virou doença que virou rancor eterno sentia o peito apertar até quase sumir. E isso doía de verdade. De quando, quase ontem, ouvi o baque das malas no chão porque não tinha mais nada a ser ouvido. De quando vi aquela carta ser lembrada depois de quase 10 anos e senti o peso da responsabilidade de ser irresponsável. De quando tive que ir embora e chorei um mês de saudade e um mês de alegria.
Vontade doida de pedir desculpas mil vezes... e talvez já tenha pedido. Vontade de ser aquilo que ela sonhou quando tinha cabelos longos e corpinho de miss e namorava o cara magrinho que andava de fusca. Vontade de ser cor-de-rosa como ele sempre quis. Vontade de concluir aquele livro só pra hoje ler e rir. Vontade do cheirinho de gel e do batom de marca boa que marcava na bochecha. E da marca de dedo na máquina fotográfica. Vontade do chinelo que respira e de foto no caminhão azul. Vontade de café na estrada. Vontade de ver aquela vaca pastando na cidade.
Vontade do susto atrás da porta e da história da bruxa repetida até esgotar os finais.
Mas a vontade vai com a chuva... e eu vou ficar aqui.
E talvez nesse dia cinzento típico dos poetas deprimidos eu tenha pensado demais, voltado no tempo, ansiando me jogar no depois só pra ver o que vai acontecer e depois retornar tranquila e tomar decisões certas.
A sensação é igual a de sempre e a de todo mundo. De quando eu me sentava na platéia e assistia ballet soluçando de tanta frustração. De quando, só de lembrar daquela discussão que virou barraco que virou doença que virou rancor eterno sentia o peito apertar até quase sumir. E isso doía de verdade. De quando, quase ontem, ouvi o baque das malas no chão porque não tinha mais nada a ser ouvido. De quando vi aquela carta ser lembrada depois de quase 10 anos e senti o peso da responsabilidade de ser irresponsável. De quando tive que ir embora e chorei um mês de saudade e um mês de alegria.
Vontade doida de pedir desculpas mil vezes... e talvez já tenha pedido. Vontade de ser aquilo que ela sonhou quando tinha cabelos longos e corpinho de miss e namorava o cara magrinho que andava de fusca. Vontade de ser cor-de-rosa como ele sempre quis. Vontade de concluir aquele livro só pra hoje ler e rir. Vontade do cheirinho de gel e do batom de marca boa que marcava na bochecha. E da marca de dedo na máquina fotográfica. Vontade do chinelo que respira e de foto no caminhão azul. Vontade de café na estrada. Vontade de ver aquela vaca pastando na cidade.
Vontade do susto atrás da porta e da história da bruxa repetida até esgotar os finais.
Mas a vontade vai com a chuva... e eu vou ficar aqui.
sábado, 26 de janeiro de 2008
Quando cai a noite
Pouco depois das oito da noite ela gostava de sentar no sofá e se aconchegar, esperando por sua novela. Gostava de tomar seu café devagar. Gostava de fazer cafuné no seu amor.
Um pouco mais tarde dessa vez, ela sentou no seu lugar habitual, chamou Cesinha e pôs-se a passar os dedos entre os anéis do seu cabelo fino e levemente dourado. Desta vez mais cansada, com um pouco de dificuldade devido ao ferimento enfaixado da mão direita.
Fazia um esforço, mas era recompensada. Seu prêmio era aquele sorriso de canto de boca que ele dava cada vez que ela lhe agradava desse jeito. Seu prêmio era os olhos castanhos semi-cerrados, o calor do corpo dele repousando no seu colo. Nesse momento era feliz.
Enquanto agradava seu amor, olhava ao redor. Os quadros nas paredes acolhedoras, o perfume das flores na janela, o tapete fofinho sob seus pés maltratados... Ele lhe dera uma vida de verdade. Lembrar da sua vida três anos atrás era até doloroso. Gritos, choro de criança, briga de vizinhos, panelas amassadas com sobras de carne dura... e o cheiro... lembrar daquele cheiro fazia o odor voltar-lhe às narinas. Aquele lugar fedia a esgoto, bicho morto, comida estragada.
Mas aí surgiu seu anjo, lhe arrancando da pele a cor imunda das ruas barrentas, tirando as vergonhas encrustadas nos nós do seu cabelo maltratado, escovando a dor da ignorância colada às suas costas sardentas, lavando a sordidez agarrada aos dentes amarelados.
Fez-se ela, mulher cuidada, sorridente e com brilho nos olhos. Que anda pela casa balançando os quadris contentes com a vassoura na mão, cantarolando músicas que só ela conhecia.
Os dias difíceis são passageiros agora. As dores são merecidas. Castigo é necessário de vez em quando, ela bem sabe. Mas as feridas agora saram rapidinho e ela nem liga.
Só lhe interessa o cair da noite para assistir sua novela, tomar seu café devagar e fazer cafuné no seu amor.
Um pouco mais tarde dessa vez, ela sentou no seu lugar habitual, chamou Cesinha e pôs-se a passar os dedos entre os anéis do seu cabelo fino e levemente dourado. Desta vez mais cansada, com um pouco de dificuldade devido ao ferimento enfaixado da mão direita.
Fazia um esforço, mas era recompensada. Seu prêmio era aquele sorriso de canto de boca que ele dava cada vez que ela lhe agradava desse jeito. Seu prêmio era os olhos castanhos semi-cerrados, o calor do corpo dele repousando no seu colo. Nesse momento era feliz.
Enquanto agradava seu amor, olhava ao redor. Os quadros nas paredes acolhedoras, o perfume das flores na janela, o tapete fofinho sob seus pés maltratados... Ele lhe dera uma vida de verdade. Lembrar da sua vida três anos atrás era até doloroso. Gritos, choro de criança, briga de vizinhos, panelas amassadas com sobras de carne dura... e o cheiro... lembrar daquele cheiro fazia o odor voltar-lhe às narinas. Aquele lugar fedia a esgoto, bicho morto, comida estragada.
Mas aí surgiu seu anjo, lhe arrancando da pele a cor imunda das ruas barrentas, tirando as vergonhas encrustadas nos nós do seu cabelo maltratado, escovando a dor da ignorância colada às suas costas sardentas, lavando a sordidez agarrada aos dentes amarelados.
Fez-se ela, mulher cuidada, sorridente e com brilho nos olhos. Que anda pela casa balançando os quadris contentes com a vassoura na mão, cantarolando músicas que só ela conhecia.
Os dias difíceis são passageiros agora. As dores são merecidas. Castigo é necessário de vez em quando, ela bem sabe. Mas as feridas agora saram rapidinho e ela nem liga.
Só lhe interessa o cair da noite para assistir sua novela, tomar seu café devagar e fazer cafuné no seu amor.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Gaiola vazia
Me disseram que a febre é só reflexo, é só parágrafo... E eu que perdi tanto tempo dizendo e achando ser explicação, fundamento, conclusão sem prévia e sem propósito. As têmporas doem um pouco mais a cada pulsação e gritar já é proibido, ato devasso, obsceno e inadequadamente enquadrado em desencaixes das moléculas no ar. E mesmo que eu tentasse, ao simples lançar da idéia, ela não espera e em perplexa forma foge de mim em vôo rápido e rasante o que para ela é apenas suave passeio.
Até mesmo a possibilidade de chamá-la já é vergonhosa, mal ouso tentar. É inútil se convencer de que fui quem pulou primeiro se ainda estou lá, em débil aceno à nuvem baixa, sonhando e buscando ainda ver a silhueta desenhada nos meus olhos em toda manhã quente e sonora.
Não... gritar não... É pecado... macula o canto incompreensível da queda.
Até mesmo a possibilidade de chamá-la já é vergonhosa, mal ouso tentar. É inútil se convencer de que fui quem pulou primeiro se ainda estou lá, em débil aceno à nuvem baixa, sonhando e buscando ainda ver a silhueta desenhada nos meus olhos em toda manhã quente e sonora.
Não... gritar não... É pecado... macula o canto incompreensível da queda.
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
À prova
Ele arriscou umas palavras, mas não sabia falar inglês. Tampouco sabia falar. Ao encarar aquele rosto pequeno ele engolia seco, agitava as mãos em pedido cego de socorro, enquanto seus olhos explodiam em aflições e angústias.
Para que palavras com tanto olhar?
A garotinha sorria e em cada sorriso um tempo que já foi. Cada som infantil uma marca do passado que ele não saberia reconhecer. Poderia usar discursos, poderia apoiar-se em grandes nomes. Sim, o presente é tudo o que temos. Diga isso cem vezes sem gaguejar e tente ser dono dessa verdade. Fora das duvidosas palavras do mundo, ele apenas sabia que sim, passado é real. Passado dói, transforma e não se altera.
Passeio no parque, coca-cola, picolé e aqueles bichinhos de pelúcia que colam no vidro... subterfúgios nulos, retirados como modelo de um filme com final feliz e que nunca se aplica.
E ele sabe. Mas ela não. Ela só sorri e estende os dedinhos minúsculos que mais cedo foram rabiscados de caneta colorida e agora apresentam riscos gastos e pouco visíveis. E ele continua engasgado sabendo que aquele desenho vivo ele jamais verá.
Para que palavras com tanto olhar?
A garotinha sorria e em cada sorriso um tempo que já foi. Cada som infantil uma marca do passado que ele não saberia reconhecer. Poderia usar discursos, poderia apoiar-se em grandes nomes. Sim, o presente é tudo o que temos. Diga isso cem vezes sem gaguejar e tente ser dono dessa verdade. Fora das duvidosas palavras do mundo, ele apenas sabia que sim, passado é real. Passado dói, transforma e não se altera.
Passeio no parque, coca-cola, picolé e aqueles bichinhos de pelúcia que colam no vidro... subterfúgios nulos, retirados como modelo de um filme com final feliz e que nunca se aplica.
E ele sabe. Mas ela não. Ela só sorri e estende os dedinhos minúsculos que mais cedo foram rabiscados de caneta colorida e agora apresentam riscos gastos e pouco visíveis. E ele continua engasgado sabendo que aquele desenho vivo ele jamais verá.
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