Quem conheceu Norma Flor sabe que a dor pode assumir o posto de infinito. Norma Flor teve o azar de ser e estar. Algo que nunca poderia mudar, mas que hoje arrasta sua existência com a aspereza de uma mão calejada de tantas agulhas.
Sua vida era medida em metros quadrados. Cerca de 300 ou menos.
A população do seu planeta era sua clientela rabugenta e apressada. Chegavam às pilhas depositando sacolas e levantando poeira na velha mesa parcialmente devorada por cupins. Norma Flor tossia implicante. Ninguém notava. Os habitantes de Norma Flor queriam tudo pra amanhã antes das 5h. Entravam e saiam e ela nem sabia mais quem era quem. Bastava deixar tudo sempre pronto, cada um sabia o que lhe cabia melhor.
E Norma Flor baixava a cabeça diante da velha máquina de costura e pedalava como nos velhos tempos. Porque eram apenas esses que ela conhecia.
Pedalava rápido, os pés desenhados no ferro. Seu quadril era a base; seus dentes, a agulha por onde passava todo o tipo de arte. Do pano de linho amarelado à seda mais pura. Ela seguia mordendo os pontos, desenhando as formas como estradas que nunca chegam à praia.
Seu planeta tem uma cozinha velha, uma garagem cheia de tralhas, um banheiro enorme com uma banheira nostálgica, um quarto comum e um cômodo fechado. Fechado por quem? Não por Norma Flor.
Norma Flor não é o tipo de pessoa que fecha um cômodo. Mas se estiver fechado, ela nunca ousaria abrir. E agora, por mais que os anos voem, sabedoria e grandeza se fundem moldando uma nova razão: o esquecimento.
Hoje, 35 anos mais tarde, ela segue produzindo seu som de máquina velha dia e noite, deixando tudo pronto até as 5h.
Mas o povo sacudido do seu planeta não se aguenta e forma filas suspeitas, cada um mais decidido que o outro a quebrar o Esquecimento. Empurram-se, entram sorrateiros, cochicham, resmungam e esbarram nas coisas. Os habitantes de Norma Flor não querem portas fechadas.
Seus súditos fofoqueiros escancaram a porta selada pelo tempo e contemplam um espaço branco e vazio. À exceção das teias de aranha, nada há para ser compartilhado com pipoca. Todos saem aos poucos mergulhando em suas rabugices. Resta Norma Flor parada diante do vão maculado, pequenina e enrugada, franzindo a testa para segurar a coluna que já encolheu depois de tantos anos sendo máquina. Olhos verde-claros pingando lágrimas, respira rápido e profundo para não deixar o ar fugir.
Guardo-o todo comigo e torno-me você. Norma Flor deixou-se absorver pelas paredes e fechou-se.
Na mesa velha ao lado da máquina de costura, pilhas e pilhas de sacolas acumulam inquietando a poeira e nada mais.
"... gosto de muitas coisas ao mesmo tempo, e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de um destino falido para outro, até desistir. Assim é a noite, é isso o que ela faz com você; eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão". (Jack Kerouac, On the road)
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Apenas mais um josé
Sob o sol do trigésimo terceiro por-do-sol daquele inverno, o homem de estatura baixa buscava algum tipo de conforto. O suor ácido e viscoso colava entre as dobras do pescoço manchado, denotando certa ausência de higiene para a qual ele nem mais ligava. As mãos espalmadas como em estado de meditação buscavam os raios fracos, que em meio às sombras dos edifícios marcavam vincos profundos e cortes mal cicatrizados.
Num dado momento cogitou ir para casa. Mas a imagem referencial surgia turva, em caminhos alternados, talvez entrecortados ou mesmo invadidos e alterados por uma civilização varrida dali. Mesmo assim buscou a chave minúscula que levava junto ao peito, presa por um resto de barbante. Pensou com ironia na fragilidade daquela peça, produzida e reproduzida tantas vezes que já nem contava mais, cada cópia associada a uma perda... Criara sem querer um significado novo para aquele metal retorcido.
Tanta reflexão afastou a pouca luz que restava, dando lugar ao vento gelado, tão cortante quanto o barulho de buzinas e de gente. Era toda a gente que saía das caixas. Gente de calçada, gente de cadeiras, gente de risadas... De grupos, de duplas, de filhos pendurados... Gente de ninguém como ele.
A boca seca gritou saudade de álcool e limão. Ao seu lado, gente de camisa xadrez e livros tagarelava teorias desmedidas, entediando uma garota avoada que enchia a cara para fingir que não entendia nada daquilo. Ele se encheu de compaixão por aquela pessoinha deslocada, chegou-se mais, pediu cigarros e bebida. Pôs-se a entrete-la com uma conversa qualquer, à qual era óbvio que ela se dedicava bem mais.
E ficaram assim por horas. Brincando de pensadores, falando qualquer asneira intercalada com profundas compreensões instantâneas. Dessas que surgem preciosas em momentos tão perdidos e dão mais sentido ao pensamento coletivo... Mas que geralmente são esquecidas logo mais.
Na virada do dia a boca cansa de abrir e fechar. A língua amolece e os olhos piscam mais devagar. A garota tem mais pique, é bem verdade, mas ele bem que aguentou firme.
Você não vai para casa?, ela pergunta já amiga de longa data. Para quê? Logo mais tenho que voltar. Então me ajeito por aqui mesmo. A resposta satisfaz e ela vai embora em seu passo lento. Ele puxa o cobertor e adormece com um sorriso de novas ideias. Logo amanhecerá e apenas mais um josé dorme sereno na calçada.
Num dado momento cogitou ir para casa. Mas a imagem referencial surgia turva, em caminhos alternados, talvez entrecortados ou mesmo invadidos e alterados por uma civilização varrida dali. Mesmo assim buscou a chave minúscula que levava junto ao peito, presa por um resto de barbante. Pensou com ironia na fragilidade daquela peça, produzida e reproduzida tantas vezes que já nem contava mais, cada cópia associada a uma perda... Criara sem querer um significado novo para aquele metal retorcido.
Tanta reflexão afastou a pouca luz que restava, dando lugar ao vento gelado, tão cortante quanto o barulho de buzinas e de gente. Era toda a gente que saía das caixas. Gente de calçada, gente de cadeiras, gente de risadas... De grupos, de duplas, de filhos pendurados... Gente de ninguém como ele.
A boca seca gritou saudade de álcool e limão. Ao seu lado, gente de camisa xadrez e livros tagarelava teorias desmedidas, entediando uma garota avoada que enchia a cara para fingir que não entendia nada daquilo. Ele se encheu de compaixão por aquela pessoinha deslocada, chegou-se mais, pediu cigarros e bebida. Pôs-se a entrete-la com uma conversa qualquer, à qual era óbvio que ela se dedicava bem mais.
E ficaram assim por horas. Brincando de pensadores, falando qualquer asneira intercalada com profundas compreensões instantâneas. Dessas que surgem preciosas em momentos tão perdidos e dão mais sentido ao pensamento coletivo... Mas que geralmente são esquecidas logo mais.
Na virada do dia a boca cansa de abrir e fechar. A língua amolece e os olhos piscam mais devagar. A garota tem mais pique, é bem verdade, mas ele bem que aguentou firme.
Você não vai para casa?, ela pergunta já amiga de longa data. Para quê? Logo mais tenho que voltar. Então me ajeito por aqui mesmo. A resposta satisfaz e ela vai embora em seu passo lento. Ele puxa o cobertor e adormece com um sorriso de novas ideias. Logo amanhecerá e apenas mais um josé dorme sereno na calçada.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Desconstrução III
Estou meio cansado, olhos embaçados, parece que há fumaça ao meu redor. Escrevo assim devagar, pois dói-me a mão ainda com bolhas de hoje cedo. Um caixote mal arranjado fará o papel da minha célebre mesa de jantar... Dou uma risada que sai mais alto do que esperava ao pensar em minha mãe. Penso forte, denso, ela quase está aqui à frente perambulando por entre os tijolos e a areia com um ar contrafeito e nariz vermelho de alergia. “Deve ter milhares de gatos por aqui, sabe que sou alérgica a gatos”, brada ela mal se equilibrando no alto de um salto 15.
Meu riso me assusta e num pulo deixo a caneta cair, mas o som parece vir de algo muito mais pesado. Formigas ao chão soam-me como uma debandada de búfalos.
À minha frente não há mais a mesma paisagem e, embora esta seja repulsiva, baixo a cabeça e sigo escrevendo com um lábio mordido ornado por um fio de sangue seco.
Pede-se licença e arranca da mente a marca de batom, a casca de esmalte cor de café. Lindas mãos pousadas sobre fino tecido que fora arremessado com tanto desprezo sobre a cama recém feita com cheiro de chá de maçã. Intempestiva forma fugaz que lança ao ar um sopro de beleza inexplicável, incompreensível encanto no ódio mais primitivo.
Na cena destruída estico as pernas buscando um cigarro, depois os fósforos, esfregando com insistência os olhos, quase acreditando na opacidade do cenário. Sou um homem criança dentro de um corpo adulto retocado. Acima disso apenas o vazio; e abaixo, o vácuo. É isso que me coloca onde estou e não posso cuspir diante de tamanho favor que a vida me concede, jogando-me para longe de antes, dando-me na feiúra e na poeira a sorte de reconstruir as peças encaixadas sem base, tão incrível mosaico que logo desmontaria por completo.
Dobro meu corpo em direção ao chão, vejo-me ali naquela pedra rompida. Agora que monto virilidade, empilho empáfia. Mais um tijolo fora do lugar.
Meu riso me assusta e num pulo deixo a caneta cair, mas o som parece vir de algo muito mais pesado. Formigas ao chão soam-me como uma debandada de búfalos.
À minha frente não há mais a mesma paisagem e, embora esta seja repulsiva, baixo a cabeça e sigo escrevendo com um lábio mordido ornado por um fio de sangue seco.
Pede-se licença e arranca da mente a marca de batom, a casca de esmalte cor de café. Lindas mãos pousadas sobre fino tecido que fora arremessado com tanto desprezo sobre a cama recém feita com cheiro de chá de maçã. Intempestiva forma fugaz que lança ao ar um sopro de beleza inexplicável, incompreensível encanto no ódio mais primitivo.
Na cena destruída estico as pernas buscando um cigarro, depois os fósforos, esfregando com insistência os olhos, quase acreditando na opacidade do cenário. Sou um homem criança dentro de um corpo adulto retocado. Acima disso apenas o vazio; e abaixo, o vácuo. É isso que me coloca onde estou e não posso cuspir diante de tamanho favor que a vida me concede, jogando-me para longe de antes, dando-me na feiúra e na poeira a sorte de reconstruir as peças encaixadas sem base, tão incrível mosaico que logo desmontaria por completo.
Dobro meu corpo em direção ao chão, vejo-me ali naquela pedra rompida. Agora que monto virilidade, empilho empáfia. Mais um tijolo fora do lugar.
terça-feira, 21 de abril de 2009
Sem controle
Você está pensando o quê? É chegar, sentar, colocar os pés para o alto, acender seu cachimbo e vomitar baforadas no espelho julgando-se capaz de compreender tudo o que lhe cerca.
Enquanto as folhas levantam vôo logo ali você não sabe sequer quem lhe chegou por trás aplicando aquela peça, rasgando a lapela do seu casaco desajeitadamente enquanto tentou sussurrar-lhe um segredo.
Assim algumas palavras desconexas vagam até hoje na sua mente arriscando algumas relações improváveis, unindo-se, invertendo-se, divertindo-se.
É porque, dentre todas, é a mais bela, a mais forte, a mais segura que você tenta alcançar esticando-se na ponta dos pés denotando uma falta de prática patética diante de dez gargalhadas contidas.
Então, você está pensando o quê? Você não sabe mais o que fazer.
Ou nunca soube.
Enquanto as folhas levantam vôo logo ali você não sabe sequer quem lhe chegou por trás aplicando aquela peça, rasgando a lapela do seu casaco desajeitadamente enquanto tentou sussurrar-lhe um segredo.
Assim algumas palavras desconexas vagam até hoje na sua mente arriscando algumas relações improváveis, unindo-se, invertendo-se, divertindo-se.
É porque, dentre todas, é a mais bela, a mais forte, a mais segura que você tenta alcançar esticando-se na ponta dos pés denotando uma falta de prática patética diante de dez gargalhadas contidas.
Então, você está pensando o quê? Você não sabe mais o que fazer.
Ou nunca soube.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
Seu moço
Ei, moço,
Você que chega a passos mansos envolto em trapos brancos meio rasgados, já suado em prantos soluçados. Coloca um pé à frente do outro sem métrica, sacode os bolsos com o movimento nervoso das mãos elétricas, tateia por um cigarro, encontra uma foto velha de sua amante histérica que em cantos melosos torneados por cílios postiços colocava-lhe as rédeas.
Ei, moço,
Aonde você vai agora? A chuva está mais forte e você caminha sem rumo, sem sorte, parece a cada dia despertar em busca da morte. E se ao norte sua forma se esvai e você ainda vagueia por entre brisas e poeira, sem esbarrar, sem descansar, sem desviar do rumo imaginário, me diga moço: onde encontra seu fim?
Pois eu aqui não sou ninguém, seu moço, mas me permita dizer-lhe poucas palavras tolas... Caso tudo isso lhe subir pela garganta, entenda que de nada adianta seus passos eternos para diante do ontem. Você apenas se põe a andar em círculos, pois é só o que sua mente conseguirá comandar. Então recolha seus joelhos batidos, seus ouvidos feridos de tanto silêncio e volte para dentro de si até a chuva passar.
Você que chega a passos mansos envolto em trapos brancos meio rasgados, já suado em prantos soluçados. Coloca um pé à frente do outro sem métrica, sacode os bolsos com o movimento nervoso das mãos elétricas, tateia por um cigarro, encontra uma foto velha de sua amante histérica que em cantos melosos torneados por cílios postiços colocava-lhe as rédeas.
Ei, moço,
Aonde você vai agora? A chuva está mais forte e você caminha sem rumo, sem sorte, parece a cada dia despertar em busca da morte. E se ao norte sua forma se esvai e você ainda vagueia por entre brisas e poeira, sem esbarrar, sem descansar, sem desviar do rumo imaginário, me diga moço: onde encontra seu fim?
Pois eu aqui não sou ninguém, seu moço, mas me permita dizer-lhe poucas palavras tolas... Caso tudo isso lhe subir pela garganta, entenda que de nada adianta seus passos eternos para diante do ontem. Você apenas se põe a andar em círculos, pois é só o que sua mente conseguirá comandar. Então recolha seus joelhos batidos, seus ouvidos feridos de tanto silêncio e volte para dentro de si até a chuva passar.
terça-feira, 24 de março de 2009
Antes de agora
O que você vive está estampado na sua cara. Essa cara é a sombra do que já se fez...
Do que já se viu.
E não há como apagar essa marca. Você tenta quebrar, mas o tecido é tão leve que não se rompe na mais alta queda...
E não se rasga no mais firme impulso.
O que você fez e criou cresce a cada momento e a única ação o impele a carregar e arrastar dia-a-dia por entre breves descansos.
E você tenta recomeçar. É um recomeço oposto ao começar de novo... Como um reinvento inverso.
O retrocesso.
E é caminhando a passos curtos para trás que você impede a queda.
Mas jamais descobre o que está atrás do muro.
Do que já se viu.
E não há como apagar essa marca. Você tenta quebrar, mas o tecido é tão leve que não se rompe na mais alta queda...
E não se rasga no mais firme impulso.
O que você fez e criou cresce a cada momento e a única ação o impele a carregar e arrastar dia-a-dia por entre breves descansos.
E você tenta recomeçar. É um recomeço oposto ao começar de novo... Como um reinvento inverso.
O retrocesso.
E é caminhando a passos curtos para trás que você impede a queda.
Mas jamais descobre o que está atrás do muro.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Elline - 1821
O despertar era sempre um momento de delicada transição. Aos poucos o sono se acabava, esgotando sua magia e dando lugar à vivacidade contida na face aquecida. Esse momento sempre a conduzia em leves ondas mornas. A cada sonho uma carga de sensações tão densas e tão profundas que garantiam um dia inteiro de refúgio.
E tão logo o sono findava, Elline abria os olhos lentamente envolta em uma aura espessa avermelhada que tomava seu quarto inteiro e entrava pelas narinas e pelos poros, parecendo arrancar-lhe daquele lugar. Por vários minutos a confusão da chegada à realidade lhe envolvia completamente e ela ficava lá quietinha, absorvendo cada odor, cada espasmo de surrealidade num desejo de agarrar-se àquilo para que não se perdesse jamais.
Fechava então os olhos novamente tentando reviver tudo o que se passara, buscando seu sentido e traduzindo o incompreensível em vagas impressões. Ao selar as pálpebras sentiu o resgate da memória de um sonho reincidente. Ela estava lá. Não era seu corpo, não era seu rosto, mas sabia que era ela. Sob seus pés um chão desconhecido, como se a terra perdesse seu significado e estivesse presente através daquela linha ondulada repleta de grãos minúsculos.
No seu sonho, Elline não falava, não via, não ouvia. Eram apenas impulsos invisíveis a dominar o espaço.
Era como que estivesse a pegar o vento entre as mãos e ouvir-lhe uma cantiga de ninar.
Com os sentidos desconexos a atmosfera alternava em cores, e cada cor um perfume. Por poucos instantes o cheiro suave dava lugar a odores amadeirados que lhe faziam torcer o nariz pela simples lembrança... mas logo cessavam.
O desejo forte caía-lhe como uma rocha no peito e ela se contorcia, por hora tentando evitá-lo em constrangimento infantil, para depois recebê-lo de braços erguidos respirando fundo e guardando em si cada tremor com um sorriso.
Ao fim, ela suspirava. Erguia-se da cama e logo a nuvem da cor dos seus cabelos era expulsa pelos movimentos rápidos e bruscos das arrumadeiras que invadiam seu quarto.
Elline mal podia esperar o anoitecer.
E tão logo o sono findava, Elline abria os olhos lentamente envolta em uma aura espessa avermelhada que tomava seu quarto inteiro e entrava pelas narinas e pelos poros, parecendo arrancar-lhe daquele lugar. Por vários minutos a confusão da chegada à realidade lhe envolvia completamente e ela ficava lá quietinha, absorvendo cada odor, cada espasmo de surrealidade num desejo de agarrar-se àquilo para que não se perdesse jamais.
Fechava então os olhos novamente tentando reviver tudo o que se passara, buscando seu sentido e traduzindo o incompreensível em vagas impressões. Ao selar as pálpebras sentiu o resgate da memória de um sonho reincidente. Ela estava lá. Não era seu corpo, não era seu rosto, mas sabia que era ela. Sob seus pés um chão desconhecido, como se a terra perdesse seu significado e estivesse presente através daquela linha ondulada repleta de grãos minúsculos.
No seu sonho, Elline não falava, não via, não ouvia. Eram apenas impulsos invisíveis a dominar o espaço.
Era como que estivesse a pegar o vento entre as mãos e ouvir-lhe uma cantiga de ninar.
Com os sentidos desconexos a atmosfera alternava em cores, e cada cor um perfume. Por poucos instantes o cheiro suave dava lugar a odores amadeirados que lhe faziam torcer o nariz pela simples lembrança... mas logo cessavam.
O desejo forte caía-lhe como uma rocha no peito e ela se contorcia, por hora tentando evitá-lo em constrangimento infantil, para depois recebê-lo de braços erguidos respirando fundo e guardando em si cada tremor com um sorriso.
Ao fim, ela suspirava. Erguia-se da cama e logo a nuvem da cor dos seus cabelos era expulsa pelos movimentos rápidos e bruscos das arrumadeiras que invadiam seu quarto.
Elline mal podia esperar o anoitecer.
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