quarta-feira, 14 de maio de 2008

O encontro

Mello perdeu o ar ao olhar distraídamente pelo vidro fechado do carro naquela manhã tão igual a qualquer outra. Chegou a duvidar do que via, geralmente se perdia em pensamentos e alucinava com lembranças conforme o clima, a música no carro, etc. Mas não foi o caso, a cena era tão real quanto a garoa que caía sem cessar e o caos no trânsito por ela provocado naquele momento.
Lá estava Vizzo, sim era ele, tinha certeza. O corpo encurvado, olhando para o chão, roupas pesadas, andando com um gingado particular... Era ele, totalmente diferente, mas era ele.
Mello teve ímpetos de descer do carro, correr até lá, sacudir o homem e dar um abraço apertado. Quis arrastá-lo para um bar, dividir uma cerveja e contar-lhe sua vida, saber da vida dele... coisas que há muito não fazia. Mas, ao contrário, ficou lá parado de queixo caído, tentando imaginar tudo o que poderia ter-lhe acontecido para protagonizar aquela cena.
Como a fila de carros estava parada, lá ficou Mello analisando e pensando...

O dia mal clareou e logo a garoa tratou de escurecê-lo, pintando uma paisagem triste e charmosa de inverno. Peguei meu casaco largado na cadeira e saí batendo a porta. "É interessante não ter mais malas para carregar". Saí do hotel debaixo das reclamações da proprietária, ela não me queria mais lá. "É estranho não ter mais ninguém para compartilhar".
Andei um pouco na rua sem rumo algum. Meti a mão no bolso em busca de um trocado para o café da manhã, encontrei míseras moedas. Desisti e segui andando. Esbarrei numa senhora e ela entrou em pânico, sua reação me assustou. Ela gritou e saiu correndo, agarrada à bolsa. Parei diante de uma vitrine e observei meu reflexo: quando foi que parei de pensar em mim? quando foi que me abandonei dessa forma?
A vida não é fácil quando tomamos decisões erradas, mas... afinal, há fórmula que facilite a vida? Meus atos me afastaram do mundo e hoje estou aqui sem rumo, sem objetivos q vão além da próxima refeição. Meus talentos se enterraram no asfalto, meu orgulho desceu pela privada e meu sangue... desistiu de correr pelas minhas veias, disse-me em sonho que não lhe valia mais a pena trabalhar por mim.
Foi então que me vi nestes trapos sujos e fedorentos, com a barba encobrindo o ex-sorriso, bochechas magras e pálidas, cabelo imundo colado no pescoço pelo suor de vários dias... Respirei fundo e desisti de pensar, foi pensando que vim parar aqui afinal.
Foi então que olhei para a rua e viu aquela cena, quase não acreditei. A fila de carros parada, vidros escuros fechados... mas reconheci aquele rosto, não tinha como não reconhecer. Será que ele me viu? Estava tão diferente, tão bonito e sofisticado naquele carro importado, estaria indo para o trabalho? Certo que sim.
Por um instante quis correr e bater no vidro, arrancar-lhe do carro e abraçá-lo forte. Quanta saudade daquele tempo de cumplicidade... Mas a vergonha de mim mesmo forçou meu olhar para o chão e mesmo com o coração saltando pela boca tentei passar despercebido. Pior do que ser eu é deixar meu próprio irmão ver no que me tornei.

O sinal abriu, Mello arrancou com um frio na barriga. Sabia que jamais tornaria a vê-lo.

sábado, 3 de maio de 2008

Carta póstuma

Meu amor...

Hoje pela manhã acordei e vi você ao meu lado, respirando profundo, sorrindo de leve, a barba por fazer contornando o queixo pequeno. Vi a luz do dia entrar e arrancar seu sonho. Você esfregou os olhos igual a uma criança e olhou para mim, mantendo o sorriso. Eu retornei o olhar, e você nem sequer sabia quanto ele dizia...
É bom recordar aqueles dias de outono em que caminhávamos enganchados como dois bêbados pela rua. Lembra o quanto planejávamos nesses dias?
Teve um dia, você nem mesmo percebeu: pelo caminho cruzamos um parque e uma bola veio ao seu encontro, seguido por uma menina linda de cabelos cacheados. Você entregou a bola e ficou lá agachado, vendo-a voltar correndo para os amiguinhos. Eu vi as lágrimas no canto do seu olho e nunca tive coragem de perguntar o porquê. Como eu queria saber!
Lembro também daquela nossa briga horrível, que até mesmo acordou os vizinhos, que vergonha... Você lembra o motivo? Eu não lembro, mas as ofensas que trocamos quase nos destruiu completamente. Se fosse agora, pediria desculpas... Nada valia tanto a pena discutir.

Engraçado como quando somos crianças, projetamos o nosso futuro de uma forma tão pragmática e cronologicamente perfeita. Aí a gente cresce e repara que esqueceu de uma coisa básica chamada vida. E na vida tudo acontece na base do "depende". Então seguimos escolhendo isso ou aquilo, andando ou correndo... Tem horas que eu lembro da minha mãe dizendo: "quando você crescer vai entender isso melhor". E eu crescia e nem percebia ou nem lembrava como era antes de entender. Apenas seguia compreendendo ou protelando decisões sem me dar conta do quanto havia mudado. Chegou uma hora que simplesmente pareceu-me estar pronta: eu era uma adulta. E olha que isso aconteceu muito tempo depois do que eu planejava quando criança. Aconteceu quando vi que decidia melhor, pedia menos e fazia mais, levantava mais rápido, esquecia sem dor, falava mais devagar e pensava muito, mas muito mais. E foi tão divertido me dar conta disso que cheguei quase a esquecer que ainda aprenderia mais... Pois é, eu não sabia quando seria o fim.

Foi então que encontrei você assim, sentindo-se igualmente pronto. Sem saber, fomos a escola um do outro. Um com o outro fomos crianças manhosas, fomos adolescentes briguentos, fomos adultos cansados. E de tantas dores e enganos e noites brigadas... aposto que já se perguntou, como eu tantas vezes me perguntei: quando fomos felizes?

Pois agora eu vejo. Hoje de manhã, quando o sol te despertou para mim... Hoje de manhã fomos felizes. Mas não fique triste, agora eu sei que tivemos infinitos "hojes-de-manhã".

quarta-feira, 12 de março de 2008

Orvalho

Um dia que amanhece um tanto frio, o sol parece não ter despertado ainda para sua função e, apesar da luz, brilha lá no alto fresquinho. Cara de verão das montanhas.
Só agora de manhã viram que ela chorara mais uma vez. À noite todos se recolhem às suas vidas, não ouvem os gemidos tímidos. Mas a bela rosa está lá, úmida e cabisbaixa, exausta em um leve cochilo que todos temem interromper.
Sua pequena parte envelhecida caída no chão, nas folhas algumas gotas relutantes em cair. Linda rosa que se acaba em dias... Fora injusta a distribuição das tarefas, fora injusto dar tanta beleza para tão pouco tempo. É doloroso não ser amado, mas é irreconhecível a dor de ser e perder tão cedo. Ver-se esvair deixando no ar apenas o perfume daquilo que já foi.
E logo a brisa acorda para mais um dia de trabalho, varrendo os estragos do vento boêmio, destruindo as pistas e levando consigo para onde não se sabe. Rosa acorda já sem lembrança. Olha o céu azul tão lindo e se enche de charme. Uma parte sua a menos e a cor viçosa das pétalas escondidas pode enfim tomar frente... e ela ainda é a mais bela.
Esquecimento ou fingimento, somente ao se recolher no fim da noite é que as lágrimas tornarão a cair pela perda de mais de si. Até lá, há um dia inteiro de veludo e perfume suave.
E a linda rosa espera a noite para chorar.

terça-feira, 4 de março de 2008

Sendo-me

É ela que sabe todas as minhas senhas, todos os códigos, tem a chave da minha casa e do meu cofre. Ela sabe a cor da minha alma e o peso das minhas pálpebras. Conhece o curso do meu rio de lágrimas... a seqüência das minhas palavras. Sabe quantas vezes respiro e sabe o que me faz parar de respirar. Conhece meu pulso, desenrola o emaranhado de veias, é ela que sabe quando o sangue circula mais rápido.
Ela entende o sopro do meu pensamento matinal, sabe o que me tira o sono. Conhece meus livros, meu paladar... sabe o que é música e o que me faz gritar. Ela lê as linhas da minha mão, sabe quando minhas unhas crescem, quando meu olho muda de cor. Conhece meus segredos de beleza, meus mistérios de feiura, escuta o meu silêncio, controla o vento que levanta meu vestido. Sente o cheiro da minha dor e sabe o peso dos meus ombros. Ela percorre a linha curva da minha coluna, sabe a resposta antes da pergunta. Ela mata os monstros debaixo da minha cama, toca minha canção de ninar... ela conversa com a minha preguiça.
Ela ouve meu estômago roncar, livra meus poros da poluição, lê meu riso ainda sorriso. Ela conhece meu ontem e escuta meus trovões. Ela salta entre minhas idéias, conhece meus lençóis.

Ela me é muito mais que eu. E se não fosse, quem seria eu afinal...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Primeiro amor

Mil idéias agitavam a mente do pequeno garotinho de cabelos escuros e olhos puxados iguais aos do pai. Mil movimentos a lhe provocar sorrisos, mil possibilidades de uma nova noite esgotada. Domingo ele pulava da cama com o ânimo que não lhe faria sentido anos depois. Expulsava as cobertas num chute, saltava em frente à janela e escancarava-a deixando o sol gritar na sua pele branquinha. Na casa de dois cômodos, todos eram movidos à luz solar e igualmente saltavam da cama sem o mesmo ânimo de antigamente.
Dia de feira. Parque de diversões para ele, comida no prato para todos. E lá seguia correndo com suas pernas de formiga para alcançar a pressa mau-humorada da mãe. No local, o irmão-grandão já ajeitava as barracas gritando palavrões e trocando piadas que ele não entenderia tão cedo. Logo a função começava e o mar de calçados pisados seguia em procissão desesperada, guiada pelos cotovelos e cabelos colados no pescoço.
O garotinho pulava atrás das bananas e tentava imitar as rimas. Mas o momento esperado chegava... Quando sua sombra esticada se aproximava do pé, lá ia ele correndo para a barraca de Josias, o cortador de carne. Agachava-se como um animal à espreita e ria baixinho de si mesmo.
Lá ao longe ele podia ver chegando... A multidão agitada se afastava e ele sentia-se capaz de atravessar muros com seus olhos. Sapatos rosados, pintados em flores, acima do chão. Alternavam-se em dança suave e não pediam licença. Eram cortejados, sabiam eles... o que lhes davam mais graça.
O garoto tinha aquele brilho no olhar que mais tarde desapareceria. E enrubecia-se todo ao olhar seus chinelinhos sujos tão indignos.
À noite, ao deitar, prometia em silêncio que um dia compraria sapatos bonitos de gente grande.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Dois pares

Quando os pares se cruzam, o mundo fica estranho. Eram dois: um par de um azul intenso, de profundidade oceânica; o outro negro e malicioso, sempre dizendo mais.
Lá fora, vendavais carregados de folhas e poeira cinzenta circulavam em dança agitada... o prenúncio da desordem. Mas não importava. Importavam os raios, deles o par negro fugia, assustava-se sem reflexos, umidecia-se antes de tornar a fixar. Já o azul, destemido, continuava firme, sem interromper o trajeto imaginário, a linha que não se curvava.
Os negros diziam, com seu leve tom sedutor, que não sabiam mais... Os azuis rebatiam depressa, tentando destruir a incerteza, sem molejo para torná-la aliada.
Guerra divertida, a dos pares, que por inexplicável laço não conseguiam desviar. Revidavam-se em jogos eternos, sem nunca trair a si próprios. Afinal a traição era relativa, os negros valiam-se disso com toda propriedade. Enquanto que os azuis, não ingênuos, pescavam falseadas breves e daí tiravam seu poder.
E os ventos em revolta circulavam cada vez mais rápido, medindo forças, apertando o cerco. Ventos que sonham redemoinhos, que almejam tufões furiosos... nem assim os pares se afastam. Acabam-se as forças ao seu redor, a majestosa energia inabalável permanece em seu trono provando não haver possibilidade de derrota...
Não nesta vida, não quando os pares se cruzam.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Noite de festa

Foi quando todos dormiram e os motores do galpão ao lado foram desligados... foi quando o cachorro cessou seu latido e as madeiras do chão pararam de estalar... quando a pilha do relógio da parede acabou e quando os carros pararam de passar... Quando só o som da sua própria respiração ecoava na casa e parecia que poderia ser ouvido além do Atlântico.
Mas não era silêncio o que ela tinha ali, eram vozes, muitas vozes, acompanhadas de ruídos escandalosos e risadas altas debochadas e sarcásticas. Com os olhos colados no teto ela tentou definir quem dizia o quê e assim separar os diálogos em arquivos diferentes, talvez alternando para compreender o princípio daquilo... ou até mesmo para descobrir se teria fim.
E assim o sono não se encorajava, passava o tempo e as pupilas, acostumadas à escuridão da noite, brilhavam enormes como olhos de gato. Prendeu um espirro e ouviu um "saúde" de uma voz jovial e dinâmica. Sorriu e agradeceu com a cabeça. Aos poucos foi se enturmando na festa sonora, apurando as conversas e quase ousando se intrometer.

Pontualmente às 6h da manhã, no apartamento empoeirado do 4º andar, a luz atravessa a sala de estar para avisar que a vida recomeça lá fora. As despedidas acontecem todas ao mesmo tempo e, de repente, tudo está vazio mais uma vez. Sozinha na cama estreita com seus velhos lençóis ela fecha os olhos e adormece.
Na sua mente, copos vazios e restos de comida pelo chão aguardam a próxima noite de festa.